Pra onde foi o ideal de beleza dos anos 50? Parte II: Sobre supermodelos nos anos 50, celebridades atuais e outras coisas que esquecemos

terça-feira, 21 de julho de 2015

A internet e sua facilidade em espalhar conteúdo que induz ao erro só contribuem para que as pessoas admirem a maravilhosa década de 50 pelos motivos errados, imaginando um ideal de beleza inclusivo e uma aceitação corporal que nunca existiu.  Para esclarecer alguns enganos comuns aos iniciantes no mundo da moda e do vintage, decidi fazer dois posts sobre o assunto. A primeira parte está aqui, essa é a segunda.
A modelo fashion dos anos 50 x a figura da Pin-up
Dovima, modelo fashion dos anos 50 x Bettie Page, pin-up
O grande problema de romantizar uma década inteira é não se permitir conhecê-la de verdade. A
Barbara Goalen
cultura 
pop nos traz ilustrações de pin-ups, fotos de atrizes, saias poodle e vestidos de bolinha e de repente isso é tudo o que há de memorável. Pin-ups eram modelos, mas elas eram modelos de sensualidade correspondentes ao ideal masculino. Onde estão as esquecidas modelos fashion dos anos 50 nessa equação? Em lugar algum, e é aí onde tudo dá errado. Relembremos algumas supermodelos da época como comparativo: Dovima possui medidas mínimas 83 de busto, 48 de cintura e 86 quadril pra 1,72 de altura, Barbara Goalen tinha o mesmo busto, 45 de cintura (!!) e 79 de quadril. Comparadas as modelos de hoje pode não parecer tanta magreza, mas na época é bem distante do real pra maioria das mulheres. Basta olhar as fotos de modelos da Dior, Balenciaga e tantas outras pra perceber que a realidade é mais distante ainda dessa ideia onde nos anos 50 modelos eram todas curvilíneas como Bettie Page que, aliás, tentou ser uma modelo fashion da Ford Models e ouviu da própria Eileen Ford que (adivinhem?) era grande demais pra isso e tinha muito quadril. A própria Bettie recorda isso no documentário Bettie Page Reveals All, onde cita que fazia exercícios regulares para manter sua forma também. Além das modelos fashion, o estilo “gamine” ou “waif” que era usado para designar mulheres magras, de cabelos curtos, vestuário elegante, olhos grandes e personalidade frágil e irreverente também era muito popular na década, sendo muito popularizado pela, vejam só, atriz Audrey Hepburn (e ela nem era a única).

Levando em conta as especificidades da época, dá pra dizer que o cenário é muito diferente de hoje? Temos as modelos fashion e atrizes cuja magreza e linhas longilíneas são associadas com elegância e fragilidade, temos as atrizes, cantoras e modelos sensuais que correspondem a um ideal de “bombshell” de corpo sexy e atraente que é buscado por mulheres adultas e costuma atrair o público masculino e temos as mulheres comuns, que costumam estar mais próximas disso do que da figura da modelo fashion. O ideal sexy e curvilíneo nunca deixou de estar em voga e nem de ser procurado ou de ser considerado bonito e seu público principal (mulheres adultas e homens) nunca substituiu esse ideal da mulher sensual pelas modelos magérrimas. Embora na época era importante ter uma silhueta ampulheta e curvilínea e as mulheres buscavam isso (eram os anos 50, preferências masculinas eram a lei e a moda não era tão influente nesse ponto), uma magra que possuísse um corpo ampulheta mesmo sem tantas curvas tinha espaço na mídia e na moda. A magreza está na moda desde os anos 20, quando a indústria da moda sofreu uma explosão e as melindrosas com seus corpos magros e andróginos eram o ideal de beleza da mulher moderna, independente e liberada de corsets e outros ideais de corpo mais femininos e restritivos.

Dovima, 48cm de cintura

A silhueta ampulheta farta de quadris e seios, fina na cintura e esguia nunca saiu de moda e nunca deixou de ser o corpo ideal, a silhueta magra e reta ganhou espaço na mídia desde os anos 20 com as flappers e a silhueta plus size ao menos desde o século XX nunca foi apreciada como deveria. Comparar esses dois tipos tão diferentes de modelos é injusto, já que modelos magras e mulheres curvilíneas e sensuais existiam tanto nos anos 50 quanto hoje em dia, e servindo de ideal de corpo pra dois propósitos diferentes. Nos anos 50 tínhamos Bettie Page e Dovima, no século XXI temos Kim Kardashian e Kate Moss, nada mudou. Pra quem não conseguiu descobrir ainda onde foi parar o imaginário da pin-up e o ideal de beleza sensual dos anos 50, sugiro procurar aqui na imagem abaixo porque nenhuma celebridade atual trouxe de volta ou levou embora o ideal voluptuoso: o ideal da bombshell magra com curvas nunca foi embora, você só nunca ia encontrá-lo olhando pra uma passarela nem hoje e nem nos anos 50. Todas essas abaixo são contemporâneas e consideradas mulheres belíssimas e são só alguns poucos exemplos. Da mesma forma que Marilyn não deixou de ser apreciada com a existência de Audrey e seus admiradores, nenhuma dessas abaixo deixou de ser apreciada só porque existem atrizes e modelos com menos curvas servindo a propósitos fashion ou a outros públicos.

Bombshells contemporâneas, conhecidas pela sua voluptuosidade e corpos perfeitos

Disso tudo, podemos entender que...
Brosmer e sua cintura
impossível

A silhueta da pin-up bombshell dos anos 50 nunca saiu de moda e que é sim mais realista em diversos 
aspectos do que o desejado hoje em dia, é claro que ela é muito mais natural se comparada ao ideal de hoje que conta com intervenções cirúrgicas, procedimentos estéticos minuciosos, photoshop e outras tantas mil coisas. O problema é que essa época não é um bom comparativo quando falamos de valorização do plus size ou modelos reais, já que contava com padrões rígidos de boa forma e peso e mesmo as modelos sensuais e curvilíneas ainda eram uma figura idealizada. A mulher comum não tinha tantas condições na época para transpor essas diferenças, tornando esse corpo ainda assim algo difícil de alcançar. 
Dá pra dizer com certa segurança que com uma adaptadinha aqui e ali o padrão de beleza se manteve desde os anos 50 e o que mudou foi a mulher comum e a quantidade de recursos que possuímos no setor cosmético, cirúrgico, tecnológico e de moda. As características valorizadas desde os anos 50 são as mesmas, mas foram exageradas para que ainda houvesse dificuldade em consegui-las porque o padrão nunca vai corresponder a mulher mediana se precisa ser algo pra poucos.
Pin-up de Vargas
Pra entender como funciona o padrão, precisamos entender que ele é elusivo e a intenção é ser algo difícil de alcançar. No lugar de acompanhar a onda de aumento de tamanho e proporções da mulher atual, ele distanciou ainda mais esse padrão pra que tentar alcançá-lo ainda seja difícil e gere dinheiro.  Se as modelos eram altas e a mulher mediana ficou mais alta também, então as modelos serão altíssimas. Se as sex symbols de antigamente eram curvilíneas porém com cinturinha, então terão ainda mais peito e bunda pra dar dinheiro pro setor cirúrgico, celulite de repente vira o demônio e são necessárias também barrigas chapadas de academia. Criam-se novas imperfeições todos os dias pra que assim que você terminar de consertar um “defeito”, outro que você nem sabia que tenha surja pra te fazer gastar mais.
Kerosene Deluxe

Subvertendo isso, a cena das entusiastas de pin-up de hoje em dia é um ótimo lugar onde é pregada a valorização de todos os tamanhos e formas através da estética e moda vintage. Isso talvez confunda os marinheiros de primeira viagem que veem fotos de mulheres lindas e plus size vestidas em roupas antigas e associa isso com a beleza dos anos 50 e não com a corrente atual de aceitação corporal que vem quebrando barreiras e empoderando mulheres em subculturas e recentemente na moda mainstream. O movimento Body Positive dos dias de hoje foi combinado com o revival da superfeminina moda retrô pra mostrar que todas as mulheres podem ser glamourosas sem precisarem seguir os ideais midiáticos e serem femininas sendo donas de seus corpos sem serem passivas ou menos poderosas por isso. Alguma dúvida de que essa interação entre épocas tão diferentes combina o melhor dos dois mundos?
Tess Holiday/Tess Munster

Se mais alguém confundir ela com a
Bettie eu vou surtar. Nem franja ela tem!

O fato de que mais recentemente o culto ao corpo perfeito, dietas, exercício e a glamourização do estilo 
de vida das modelos passaram a ser vendido como algo desejável também começou a influenciar mais as garotas jovens a tentar seguir esse ideal e por conta disso tem-se a impressão de que do nada todo mundo só gosta de pele e osso, o que nunca foi verdade. O apelo do mundo fashion aumentou sim e muito, mas o padrão de beleza dos anos 50 não foi a lugar algum. A indústria fashion gosta de modelos magras e cada vez mais garotas têm sido atraídas pra essa indústria e esse ideal, mas figuras como Scarlet Johansson, Kim Kardashian e Christina Hendricks nunca perderam seu apelo para as mulheres adultas e homens. Sintomático disso são aqueles seus amigos que compartilharam pela vigésima segunda vez aquela foto do “corpo ideal eleito pela revista time de 1955” choramingando que queria que esse ideal nunca tivesse ido embora: tanto ele nunca foi que essa moça é uma modelo e atriz pornográfica ATUAL chamada Aria Giovanni e essa imagem é um hoax e nada tem a ver com a revista time de 1955.

Aria Giovanni em ensaio atual, inspirada por pin-ups

Mulher Melancia, uma das
playboys mais vendidas no
país
Se levarmos em consideração a nossa localização aí é que a coisa ficou pior ainda: Enquanto nos EUA essa cultura da magreza é muito mais enfática, “fat ass” é xingamento e descobriram a bunda com JLo, Kim Kardashian e Nicki Minaj, no Brasil esse ideal mulher violão nunca foi sequer questionado enquanto preferência nacional. O ideal esguio de barriga chapada, pernas torneadas, quadril largo, seios fartos e cintura fina tá aí desde sempre. O ideal magricela surgiu na moda e passou a também ser desejável pela juventude desde os anos 20 com as flappers, nos anos 60 pela Twiggy e as mods, mais recentemente pelas heroin chics dos anos 90 e mais atualmente pela internet. Se você busca a aceitação e representação de mais tipos de corpos pela mídia além desses o conselho que fica é olhar pro futuro e não pro passado, nossa década parece mais promissora nesse sentido do que qualquer outra.

Vem que o futuro tá muito mais promissor!


Para maior entendimento e pesquisa sobre os temas abordados nesses dois posts, fiquem com esses links (em inglês):

Pra onde foi o ideal de beleza dos anos 50?- Parte I: Sobre o manequim de Marilyn Monroe, modelos magérrimas e enganos comuns

quinta-feira, 16 de julho de 2015

"Quando isso se tornou mais sexy do que isso?" Talvez...nunca?

“Ah, o mundo era tão melhor nos anos 50”, suspiram os saudosistas de tempos os quais nem viveram. “As mulheres eram curvilíneas, femininas, sensuais e saudáveis e não essas modelos anoréxicas”. Esse mantra foi perpetuado e repassado mil vezes junto de imagens de  celebridades dos anos 50 ao lado de celebridades atuais, suspirando por uma época onde a aceitação era maior, as curvas eram celebradas, as modelos eram bons exemplos de corpos realistas, o peso não importava e a beleza era vista em todos os tamanhos. Exceto pelo fato de que isso nunca existiu. É uma época fictícia, uma romantização baseada nos resquícios da década que a gente recebe da cultura pop e mais nada. Eu sou uma grande entusiasta do período, não me levem a mal por quebrar essa ilusão, mas não foi uma época de perfeição e aceitação, nunca houve uma época assim. A internet e sua facilidade em espalhar conteúdo que induz ao erro só contribuem para que as pessoas admirem a maravilhosa década de 50 pelos motivos errados.  Para esclarecer esses e outros enganos comuns aos iniciantes no mundo da moda e do vintage, decidi fazer dois posts sobre o assunto. Esse é o primeiro.


As tais medidas de Marilyn Monroe e medidas num geral...
Marilyn e suas famosas curvas

Nesses últimos meses já entrei em mais discussões sobre as oscilações de peso de Marilyn Monroe do que deveria e do que gostaria, e não, ela não passava nem perto de um manequim 46 mesmo durante as suas famosas oscilações de peso.  Ela possuía 1,66 de altura e seu peso máximo foi de 63 kgs. Traduzir isso em medidas é difícil, mas fica a experiência empírica: tive esse peso com menos altura e não passei do manequim 40. Excluindo essas variações, é sempre muito bom lembrar que sua figura de ampulheta extrema lhe dava uma cintura mínima em todos os pesos que teve. As medidas da maior parte da sua carreira eram 92 de busto, 55 de cintura e 92 de quadril.
pasmem, uma cintura maior que 
a de MM

Sim, você leu certo: cinquenta e cinco centímetros! Isso, meus caros, é menor do que um tamanho 32 ou um size zero possuem de cintura. Da próxima vez que você pensar nela como um modelo de corpo natural e realista para a mulher moderna que veste 46, lembre-se de que sua cintura era menor do que a da Twiggy, famosa modelo magrela e retíssima, que tinha 58 cm. Fazer uma moça de tamanho 46 se comparar com uma modelo de passarela é injusto, mas fazê-la comparar seu corpo com uma mulher de 55cm de cintura também é um tanto surreal. Além disso, suas famosas fotos na praia trajando um lindo maiô branco foram tiradas enquanto ela estava grávida.


grávida e linda 
Monroe e sua
cinturinha


Falando de medidas em geral, esse mito começou lá fora onde disseram que ela usava um size 16, que corresponderia a medida da mulher americana comum. Só não contavam com o fato de que desde os anos 80 as confecções começaram a usar o “vanity size” que nada mais é do que dar a manequins maiores números menores sem diminuir suas medidas. Ou seja, o size 16 de antigamente equivale a um size 8 atual que também não é o manequim dela: os vestidos usados por ela em O Pecado Mora ao Lado não conseguiram entrar em um manequim size 2 (um 34 aqui) pois ele era grande demais.  Um manequim 34 era grande demais pra sua cinturinha, durmam com essa.
O corpo ideal, o corpo real e a publicidade
Média das medidas da mulher dos anos 50 e atual, feita por pesquisadores do Reino Unido
Betty Grable


 O corpo tido como ideal era a silhueta ampulheta. Comparando a mulher média dos anos 50 com celebridades (Marilyn 92-55-92, Betty Grable 91-60-90, etc) veremos que embora partilhem da figura ampulheta, as famosas são menores do que a mulher comum e suas medidas: 93-68-99. Até mesmo as pin-ups, então, eram mais magras do que a mulher da época e isso faz sentido se observarmos o padrão de beleza como a maximização de todas as características consideradas bonitas naquele tempo e se pensarmos que atraíam mídia e fama as modelos e atrizes que chamassem a atenção pelo exagero dessas características: cintura fina, quadril largo, seios fartos, figura esguia. Considerando as ilustrações de pin-ups que usam de referência moças reais isso fica ainda mais evidente: com frequência eles tornam essas mulheres normais em mulheres padrão e suas cinturas são diminuídas, cabelos alongados, seios aumentados.
Modelos e ilustrações de Elvgren, mostrando a pin-up como o exagero das formas femininas

Uma de tantas propagandas
promovendo emagrecimento
A diferença pode parecer pouca para nós, mas vale lembrar que naquela época os recursos da mulher comum para atingirem esse padrão também eram escassos(afinal, se fosse assim tão acessível não gerava dinheiro e é pra isso que o padrão serve) e pior ainda para as muito desviantes desse ideal que também sofriam pressão midiática e publicitária pra adequarem seus corpos, como podemos ver nessa publicidade infame da marca de cigarros Lucky Strike que contraria toda e qualquer expectativa de aceitação e glorificação do corpo plus size na época. Nem se usássemos a mulher real dos anos 50 como exemplo de corpo belo e atingível teríamos um padrão acessível pras mulheres de hoje em dia, já que o tamanho e principalmente a estrutura do corpo aumentaram e muito: 97-86-101. Estamos mais altas, maiores e muito menos curvilíneas. Convenhamos que querer atingir o corpo de modelos magérrimas é pedir pra sofrer, mas se comparar com mulheres que além de mais magras possuem estrutura corporal divergente da sua também não é o melhor dos exercícios de aceitação do mundo e também não ajuda as garotas plus size se compararem com corpos tão pequenos e de curvas tão mais acentuadas em forma de ampulheta do que o tipo de corpo retângulo mais comum atualmente. Fora isso, esses comparativos entre as mulheres sensuais de antigamente e as magrelas atuais nos leva a crer que a mulher curvilínea era a única bela segundo o padrão dos anos 50, mas seria mesmo o corpo pin-up a única opção para atrizes, modelos e mulheres dessa época?  A magreza sem tantas curvas era feia e mal vista pela mídia nos anos 50? Responderei essas e outras perguntas na segunda parte desse post, mas deixo aqui uma dica:

Audrey Hepburn  e suas medidas 86-50-90

Vejo vocês na segunda e última parte desse post:
Pra onde foi o ideal de beleza dos anos 50? Parte II: Sobre supermodelos dos anos 50, celebridades atuais e outras coisas que esquecemos

Selfie-Obliteration: Yayoi, Sarah e Obsessões diversas

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Yayoi Kusama é uma artista japonesa conhecida por suas obras repetitivas e imersivas, inspiradas por suas alucinações.  Suas obras envolvendo formas circulares lhe renderam o título de Princesa dos Poás (Princess of Polka dots). Ficou conhecida nos anos 60 em Nova York pela sua associação com a Pop Art e consolidou sua fama com seus happenings controversos envolvendo corpos nus envolvidos por suas características bolinhas.  Voltou ao Japão nos anos 70 e mora desde então voluntariamente em uma instituição psiquiátrica onde produz suas obras até hoje,  sendo considerada uma das artistas vivas mais influentes.



Pra quem não sabe (ou seja, não é de São Paulo, vive debaixo de uma pedra ou não tem instagram e não foi bombardeado com as fotos) a exposição Obsessão Infinita que tem como objetivo mostrar alguns dos pontos mais importantes de sua carreira está por aqui gratuitamente no Instituto Tomie Ohtake desde 21/05 até 27/07.  Tive o prazer de visitá-la duas vezes. Da primeira vez, com mais tempo e mais calma, fui para vê-la cuidadosamente e o caráter obsessivo e visceral da arte de Kusama ao vivo é ainda mais encantador. O infinito presente na natureza dos medos, alucinações, seu amor e esperanças é expresso fielmente pelos seus quadros feitos ininterruptamente por dias, que ultrapassam os limites das telas (até literalmente, já que até as bordas de seus quadros são pintadas) e chegam até o espectador.  O que me atrai na arte dela é essa ligação intrínseca com seus sentimentos, ela só vive através da pintura e expor seus medos e suas paixões não é opcional, é questão de sobrevivência e de manter a sanidade mental.  Você jamais veria Kusama falando sobre seu trabalho de uma forma técnica, sobre como gostou ou não gostou de alguma textura. É tudo baseado em sensações e na subjetividade.

“Minha vida é um ponto perdido entre milhares de outros pontos.” – Yayoi Kusama
O que me levou a buscar a exposição uma segunda vez foi algo a parte de Kusama que aconteceu naquele ambiente. Pra começar: muita, muita gente. Filas quilométricas todos os dias da semana, em praticamente todos os horários. Se alguém duvida da influência de Yayoi, pergunte a qualquer um que foi na exposição sobre a quantidade absurda de gente. Nos finais de semana e na proximidade do fim da exposição, as filas chegavam a quarteirões de distância do prédio. Dentro da exposição me chamou a atenção a quantidade de fotos tiradas, mas não qualquer foto...selfies! Selfies em frente aos quadros, selfies com as esculturas, era tanta gente tirando autorretratos que ficava difícil até de visualizar qualquer coisa que seja. Nas salas interativas era compreensível a correria pela foto perfeita: pela quantidade de gente querendo entrar e pelas filas (sim, outras filas dentro da exposição), só era possível passar de 20 a 30 segundos em cada uma, mas mesmo assim a falta de apreciação do momento me incomodou. A correria de flashes marcou a experiência para mim e me fez pensar em obsessões: Seria essa uma obsessão com fazer parte da arte de Yayoi ou a obsessão pela auto-imagem que, dizem os críticos, marca mais a nossa geração do que qualquer outra? Era a obsessão por ser espectador de obras tão marcantes ou de fazermos nós mesmos os nossos espectadores através de instagrams, facebooks e derivados?


“Esqueça-se de si. Seja um com a eternidade. Seja parte do ambiente.” – Yayoi Kusama

 É possível obliterar uma expressão tão óbvia da auto-imagem? Foi o meu questionamento. Li sobre Yayoi, vi suas fotos onde se camufla em suas obras com suas roupas e voltei lá decidida a entrar nas salas interativas e fazer parte de todos os ambientes o máximo que conseguisse,  a ter a experiência de ser parte de Kusama e não apenas estar lá como espectadora gerando outros espectadores (de mim, e não dela). Queria que nos fundíssemos numa coisa só, eu e suas obras, sem que uma se apagasse em detrimento da outra,mas sim as duas juntas formassem outra forma de expressão única. Se a eternização daquele momento se daria através de fotos então eu não queria apenas um pano de fundo para uma foto minha e sim criar outra obra fotográfica onde eu me oblitero nela e ela em mim, e de repente não somos mais separáveis. 

“Certamente eu devoto minha vida a contar minha história pessoal e procurar a auto-obliteração. Porém, eu não vou destruir a mim mesma através da arte.” – Yayoi Kusama

Pintei o cabelo, separei as roupas de acordo com cada sala e saí nessa cruzada fotográfica numa tarde chuvosa e fria de quinta-feira da última semana de exposição (também conhecida como ontem, dia 24). Depois de mais de duas horas numa fila com minha ocasionalmente fotógrafa e fiel escudeira nos reveses da vida (popularmente conhecida como minha irmã), entramos no Instituto Tomie Ohtake. Para nossa sorte, as filas lá dentro não estavam tão grandes e deu tempo de entrar em todas as salas mais de uma vez, inclusive pegando várias salas totalmente vazias no final da exposição, o que foi de uma sorte absurda e acabou me ajudando ainda mais. Fiquem com esse projeto (dá pra chamar de arte da performance?) carinhosamente chamado de “Selfie Obliteration”.
Na sala "Filled with the Brilliance of Life"


“Pontos são um símbolo do mundo, do cosmos. A terra é um ponto, a lua, o sol, as estrelas são todas feitas de pontos. Eu e você, nós somos pontos.” – Yayoi Kusama

“Acumulação  é como as estrelas e a terra não existem sozinhas, mas o universo inteiro é feito de um acúmulo de estrelas. “ – Yayoi Kusama
Na sala "I'm Here, but Nothing"

Curiosidade boba: nessa sala a coisa deu tão certo que teve gente achando que eu fazia parte da exposição. Cabelo e unhas pintados com a única finalidade de brilharem nessa sala.




“Se eu colocar poás em meu corpo e cobrir o fundo de poás, os poás em meu corpo fundindo-se com os do fundo criarão uma cena óticamente estranha.”-Yayoi Kusama
Na sala Infinity Mirror Room - Phalli's Field (Floor Show), foto e figurino
baseados em foto da própria Yayoi Kusama


“Tenho uma enchende de idéias em minha mente. Eu apenas sigo minha visão.”-Yayoi Kusama





“Certamente eu devoto minha vida a contar minha história pessoal e procurar a auto-obliteração. Porém, eu não vou destruir a mim mesma através da arte.” – Yayoi Kusama


“Quando era pequena, experimentei esse estado de obsessão infinita, então pintei o mesmo motivo incansavelmente. Quando pintava, encontrava o mesmo padrão no céu, nas escadas e janelas, como se estivesse por todos os lados. Cheguei perto para tocá-lo e começou a subir pelo meu braço também.”-Yayoi Kusama



"Eu, Kusama, sou uma Alice no País das Maravilhas moderna."
E eu habitei, enlouqueci e fiz parte desse país maravilhoso que tanto me impressionou e despertou algumas obsessões artísticas em mim também.

Sobre o exótico previsível, padrões e barbies tatuadas

quinta-feira, 26 de junho de 2014


Barbie Tokidoki
Curiouser and curiouser!

Alguns anos atrás, eu ainda estava começando a construir minhas preferências e visão do mundo em todos os assuntos. Eu era curiosa tanto quanto sou hoje, e na época onde a vida era doce eu queria experimentar um pedaço de cada coisa nesse mundo pra decidir o melhor sabor para mim. Foi assim que a arte me atraiu. Não há resposta errada na arte. Há o seu caminho e as melhorias que você faz enquanto o segue, sua visão própria possui um lugar e uma beleza que depende de você para existir, como um mundo colorido e caleidoscópico que só existe através das suas lentes. Eu não queria encaixar todo o meu esforço em uma resposta certa, eu queria fazer perguntas e respostas com as minhas palavras e minha identidade. Bem, eu escrevo hoje em dia, então dá pra ter uma noção.

Quando eu transformei o meu vestir, maquiar e apresentar em arte, buscava por isso. Procurava a minha resposta fora da exatidão das fórmulas onde eu não me encaixava. Eu era o 2+2=5. Um dos erros. Mas eu sabia que podia ser mais do que isso, e encontrei fora do previsível pessoas que também procuravam seus caminhos. Algumas criavam outros requisitos e grupos de pessoas com ideais visuais de produção e vestimenta parecidos. Mesmo assim, ninguém ligava muito pra de onde você vinha ou como você era desde que dentro dos parâmetros de cada uma você criasse algo bem elaborado. Fora delas, o céu era o limite. Come as you are.
"Arte é você ser livre de todo o peso do mundo"

E então, começou. A exatidão tomou aos poucos a liberdade criativa como sempre faz: em ciclos, deixando nascer pra se apoderar logo em seguida. Da mesma forma que as coisas novas são imitadas pelas lojas caras e depois pelas populares, o mesmo ocorreu com os corpos-arte. As modas alternativas foram sugadas aos poucos. Exemplo rápido: a procura por “tatuadas” começou como um nicho pequeno e de repente se tornou algo de proporções gigantes, que demandava mais e mais. Para atender bem a esse público crescente, cada vez mais a beleza criativa era roubada pelos padrões. Tipos de cabelo, cor da pele, cor dos olhos, altura, tipo físico. As modelos inspiradoras de estilos ditos alternativos nunca se pareceram tanto com modelos tradicionais, com belezas tradicionais e alguns rabiscos pelo corpo. Algo não mais fazia sentido nisso tudo e eu comecei a pensar que iniciativas como o Suicide Girls se perderam pelo caminho. Bem, talvez não o site em si (cuja proposta sempre foi um site que mostrasse as belezas de todos os tipos, tamanhos, defeitos e modificações possíveis), mas o fato de que o rótulo “suicide girl” virou uma etiqueta para ser colocada em qualquer “gostosa tatuada” e que talvez a Sasha Grey tenha mesmo razão em dizer que “Até onde eu sei, essas (mulheres) tipo Suicide Girls com cabelo preto e tatuagens são as novas loiras de peitos falsos. Todas elas se parecem”. O exótico virou previsível.

beleza convencional ao centro, alternativas ao lado

 “Até onde eu sei, essas (mulheres) tipo Suicide Girls com cabelo preto e tatuagens são as novas loiras de peitos falsos. Todas elas se parecem” - Sasha Grey


Não me leve a mal, eu não sou inimiga da beleza. Esse é um rótulo que não me cabe. Eu enxergo beleza nas coisas e pessoas mais diversas e é justamente isso o que me faz pensar que essa nova lista de padrões e exigências não faz bem a ninguém e que isso sim é muito mais contra o belo e especialmente contra a arte e expressão corporal. Eu não sou contra pessoas que se parecem com modelos, com corpos no padrão, não sou contra loiras de peitos falsos, suicide girls, com gente “gostosa” ou coisa que o valha. O meu problema não é com essas pessoas ou não gostar da aparência delas, ao contrário: amo, é necessário que existam moças assim no meio. O meu problema é isso ser a única opção mostrada e exaltada todas as vezes, como se não houvessem outras. Quero ver esse tipo, mas quero também todos os outros, ou então se chama moda alternativa mas não é uma alternativa real, só a mesma coisa em outra nuance. Talvez a busca pela aceitação do que era diferente fez com que esse diferente quisesse ser menos estranho, quisesse se adequar mais, jogar pelas regras estabelecidas. Num meio onde a diferença é o que é (ou devia ser) exaltado, não faz sentido limitar os corpos e os jeitos a certas fórmulas para que você possa se sentir bem, como quem diz “okay, você pode ousar no cabelo, roupas e nos riscos na sua pele mas pra que sua arte corporal seja bela você precisa de um corpo de revista” ao que as pessoas do meio respondem “okay, eu tenho tatuagens mas eu sou como vocês gostam” e tornam-se o que seu público quer consumir. É colocado um limite do "aceitável". Perdemos um espaço livre de inconformismo para ganharmos mais um lugar onde se julga e se cobra pela beleza e não pela criatividade, arte, execução e inovação. Trocamos o transgredir pelo agradar.



Vendo isso de longe sabe com o quê me parece? Uma linha de bonecas barbie. Podemos ter a barbie versão cabelo azul, versão tatuada, até versão plus size. As roupas mudam: o mesmo shortinho ganha a versão desfiada, a mesma blusinha vira uma cropped de banda e o rosa vira preto, mas no fim do dia estamos vestindo, fotografando, maquiando e modificando várias versões da mesma coisa, feitas na mesma forma e com pequenas modificações, exatamente como a barbie e suas amigas todas iguais com exceção da cor dos olhos e cabelo. Eu poderia dar dezenas de exemplos onde isso acontece, não é só no meio “estilo alternativo/bodymod”. Modelos Plus Size, por exemplo, seguem a fórmula “mulher exuberante cheia de curvas, muito busto, muito quadril, pouca cintura”.  E então as pessoas publicam e compartilham imagens dessas mulheres com a legenda “tão bonita quanto uma modelo” sendo que nenhuma delas é realmente inadequada ao que já está por aí, é só a versão alargada de um manequim 36. Nem a maioria das plus size são assim. Nada disso é realmente transgressor.  Por que não abrimos mais as possibilidades e enxergamos outros lugares onde a beleza pode acontecer? Essas alternativas ao padrão vigente eram necessárias para quem não pertencia a ele e queria se encontrar, mas nesse jogo não é atrás da sua identidade visual, satisfação artística, aprimoramento, criatividade e estilo que se corre atrás: é dos mesmos ideais de sempre pra se tornar mais um dos tipos catalogados de pessoas aceitáveis. Eu me pergunto até onde essas pessoas também não sentem a cobrança em serem desse ou daquele jeito e ainda se sentem inadequadas mesmo num meio que devia ser inclusivo e lugar de gente incomum, estranha ou mal representada pela mídia. Pra quê você necessita uma alternativa nova pra classificar algo que cabe nas respostas antigas? Às vezes enquanto pensamos abrir nossas mentes para o novo, só estamos abrindo nossas prisões, encaixando mais gente dentro e chamando isso de ação inclusiva. Sejam bem vindos vocês também ao cárcere!


Muitas versões de uma mesma coisa: No centro temos dois corpos convencionais e nas laterais, uma alternativa e uma plus size

Edit: Em tempo, gostaria de deixar claro mais uma vez que o meu problema não é com essas garotas. Elas ganham mais destaque porque essa indústria faz assim, e é ela quem conduz as coisas dessa forma. Se gostar como é não vende cosmético e é isso o que faz com que todas nós (alternativas ou não, até no padrão ou não) corramos atrás de ideais impossíveis. Podemos escolher nos conformar e seguir ou nos empoderar e quebrar o ciclo de sermos vistas como bonecas vestidas de tal ou tal jeito e procurarmos nossa liberdade, e é aí onde começa a luta e é esse o meu direcionamento. Se só vemos um tipo de mulher na mídia é porque a mídia só foca um tipo, e não porque só ele existe e deve ser seguido e nem quer dizer que ele seja errado ou que quem o busca é errado. Somos bombardeadas com ele e isso é compreensível e natural, mas não faz bem algum. Para maiores esclarecimentos, leiam esse post aqui

Meu corpo, um gatilho? Sobre magreza, thigh gap e roleta russa com uma semiautomática

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Recentemente, a moda dos thigh gaps saiu dos tumblrs afora e veio a conhecimento público: garotas obcecadas com magreza estavam atrás de mais um objetivo, obter um espaço entre as coxas muito visto em modelos e raro até em quem é magra (necessita uma predisposição óssea para existir). A obsessão com magreza não é uma novidade, é crescente o número de garotas com transtornos alimentares e a procura por dietas malucas, cirurgias e remédios com esse fim é crescente. Apesar disso, essa busca em particular causou estranhamento e, óbvio, gerou repercussão.

Thigh Gap


Eu reconheço, de verdade, a boa intenção de quem advoga pelas “mulheres de verdade, aquelas com curvas”. Meu respeito a todos os que reconhecem a beleza em corpos que são maiores do que um manequim 36 e não é minha intenção aqui criar uma falsa simetria, mas sim mostrar outro ponto de vista. Eu sei que a indústria pode não forçar ninguém a ser magro, mas induz e relaciona a beleza com magreza. Eu sei que mulheres com corpos perfeitamente funcionais e incríveis passam por problemas de auto-estima por não estarem adequadas a esses padrões. Carregar o estigma de ser gordo ainda é um problema e faz com que as pessoas se sintam inadequadas em todas as ocasiões, com roupas e espaços que não foram projetados para elas e sofram mais com isso do que magros. Por isso, eu entendo quem fala pelas mulheres não-magras*e pelos seus corpos, mas não acho que essa seja a abordagem correta.

Quando você defende alguém, pressupõe-se que defende de algum ataque. Quando mira a sua defesa em outras mulheres: as magras, as adolescentes, as garotas que correm atrás desse padrão, você está mirando isso no alvo errado. Quando dizem que mulheres de verdade possuem curvas, que magreza é abominável, feia, não atrativa, que mulheres magras são as grandes culpadas pelos transtornos alimentares por serem inspirações doentias a quem desenvolve isso, quando você diz a uma menina magra que ela precisa comer um hambúrguer com urgência, você está mirando no elo mais fraco e não no agente provocador disso tudo. Tomando o mundo da moda como exemplo, o nome da modelo Twiggy sempre é citado como uma referência de pessoas que causaram a mudança do padrão de beleza para a magreza e de mudança da auto-imagem das mulheres. Ela disse em uma entrevista que tudo o que queria era as curvas da Marilyn Monroe. 
Monroe x Twiggy

"Sendo magra, gorda, pequena, negra, loira, ruiva...Você sempre vai querer ser outra coisa" "Eu queria uma fada madrinha que pudesse transformar meu corpo para que ele fosse como o de Marilyn Monroe. Eu não tinha seios ou quadris, e eu os queria desesperadamente"

O meu ponto com isso é que esse jogo de alcançar a beleza perfeita é uma roleta russa com uma semiautomática: não existe ganhar. Quando se trata de auto-imagem, mulheres magras também sofrem disso. A insatisfação gera dinheiro. Você não vai vender uma chapinha para alguém que está feliz com seus cachos, não vende produtos para emagrecer a quem não acha que precisa e nem vende cirurgias plásticas para quem não quer desesperadamente se modificar. O padrão de beleza é inatingível a todas nós, em maior ou menor grau, porque isso dá dinheiro. Modelos magras são ainda mais emagrecidas e photoshopadas, fotos de atrizes sem maquiagem ou na praia ainda causam espanto. Mulheres fazem plásticas em busca do corpo cada vez mais inatingível e cheio de exigências como o tal magérrima com curvas que, para a maioria das mulheres, é uma utopia.  Quando você tira esse peso de emagrecer de uma mulher e enaltece seu corpo precisando, necessariamente, desqualificar outros corpos de outras mulheres também cobradas e inseguras você está jogando a sujeira pra debaixo do tapete. Rebaixando uma para que a outra cresça. Desnecessário.


minha expressão ao ouvir
esses disparates
Eu, pelos padrões, sou considerada magra. Eu tenho thigh gap, ossos aparentes e todo o resto. Sou constantemente submetida a questionamentos sobre minha saúde, sobre transtornos alimentares, piadas dizendo que só quem gosta de magras são peruas e estilistas e a “elogios” geralmente citando homens, cachorros e ossos. Gente tentando me empurrar comida a todo instante (levo no humor: sendo de graça, estamos aí), revistas que, ironicamente, mostram mulheres diferentes de mim e perguntas sobre minhas pretensões e pensamentos acerca de silicone. Ou gente achando que eu fiz pacto com o demo e remoção de costelas (É sério. Já posso me considerar o Marilyn Manson?)

Não estou boa o suficiente, ninguém está. Quando você diz que o meu thigh gap é um indicativo de anorexia, que eu tenho problemas de saúde sem ter conhecimento do meu histórico médico, que eu sou a razão da baixa auto-estima de outras garotas, que minhas fotos ajudam a desenvolver  problemas de saúde, que eu sou uma vilã e que o meu corpo é um gatilho que incentiva a isso tudo, você está dizendo que a culpa de toda uma indústria pautada na insatisfação corporal é minha e de tantas outras garotas que calharam de serem “aceitas” nesse ponto porém ainda rejeitadas em mil outras coisas e ainda comprando cosméticos para se sentirem melhor. Você está dizendo que a Twiggy é a causadora da epidemia de anorexia sem perceber que ela, na época, fugia aos padrões corporais e que sua imagem foi usada para criar uma nova moda e fazer mulheres correrem atrás de outro tipo de corpo como cachorros correm atrás do próprio rabo.
Ditto, sempre maravilhosa

O seu inimigo é o mesmo que o de todas as outras, mas você está atacando mulheres que são apenas dano colateral desse sistema.Você está se pautando na mulher da revista como vilã e esquecendo que existe muito mais por trás dela. Você faz o que condena: prega que alguém tem que se sentir envergonhada por seu corpo.  Transforma a mim e mais outras tantas em vilãs, estereótipos, alvos mais fáceis a se atingir.Não caibo nesse papel. Não fui eu, ou Twiggy, ou Monroe, ou Kate Moss, ou Kim Kardashian, ou Queen Latifah ou Beth Ditto que decidiram o que seria valorizado ou desprezado. Não foi de nenhuma de nós, gorda, magra, curvilínea, reta, anoréxica, obesa, que partiu essa ideia genial de criar um padrão.

Com curvas ou não, eu ainda sou uma mulher de verdade. Magra, ossos aparentes, thigh gap, sim, mas isso  são algumas características entre muitas outras. Também tenho cicatrizes, defeitos, manias, problemas de auto-estima. Parem de usar magreza ou características isoladas da magreza como elogio ou coisas positivas e usar a palavra gordo como algo ruim e abominável, ser magra ou gorda é uma mera descrição. Meu corpo é apenas um corpo. Não é perfeito, não é melhor que o de ninguém, não é ruim, não é um vilão, não é um gatilho, não é o algoz. Ele é meu, e apenas meu, fruto da minha genética, estilo de vida, com suas marcas e cicatrizes e vivências, usado por mim e para mim. É o que é, e não passa disso. É minha ferramenta para sentir e assimilar o mundo,  eficiente em seu propósito. E é de verdade.



* não-magras porque existe todo um in-between entre um manequim 38 e alguém realmente acima do peso, chamar de “gordinha” soa como se ser gordo fosse algo ruim pra ser amenizado, chamar de plus-size idem e de normal implica que corpos possuem um estágio normal e todo o resto é anomalia (quando existem biotipos dos mais variados).
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