[Dia 4 - Desafio] Resenha - Laranja Mecânica

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Laranja Mecânica
Autor: Anthony Burgess
Editora: AlephISBN: 9788576570035Ano: 2004Páginas: 199


Pra ler ouvindo:Ludwig Van Beethoven, de preferência a nona. Eu sei, eu sei, clichê até o osso, mas eu não conseguiria ler esse livro ouvindo qualquer outra coisa.



Resenha:


Num futuro distópico em uma sociedade capitalista mas ainda assim totalitária, Alex e seus droogs são uma gang de adolescentes como tantas outras, em busca de, digamos, emoções fortes. Movidos a Moloko Velocet e sinfonias clássicas, saem as noites para toltchocar, rasgarazgar e o bom e velho vinte-contra-um. Traído pelos seus companheiros de gangue e após ter cometido involuntariamente um assassinato, Alex é preso e submetido ao controverso tratamento Ludovico que tem como objetivo torná-lo um cidadão de bem como outro qualquer. Mas não é bem isso que acontece.

É sempre meio amedrontador fazer resenha de livros como Laranja Mecânica (que junto com Admirável Mundo Novo e 1984 são a tríade clássica distópica). Por eu ser fã dos livros atuais desse gênero, foi muito esclarecedor ler o que iniciou e abriu a porta para todos os outros livros. Com uma narrativa rápida e cheia de estranhamento inicial, o livro te joga numa sociedade futurística onde a violência causada por jovens arruaceiros é parte da vida. Alex conta-nos suas histórias como se vivessemos naquele mundo que, embora estranho para nós(como se fôssemos velhos, ou vekios, demais para entender), para ele é a realidade. Com seu dialeto, suas roupas características e o gosto por sangue, estupro e violência de modo geral, as gangues apenas saiam despretensiosamente por aí para fazer o que faziam sempre e matar o tédio.

O primeiro estranhamento geral que o livro causa é o dialeto Nadsat. Com termos eslavos, o infantil rhyming slang (um modo de falar baseado em repetições e inversões de sílabas e trocadilhos, como as crianças fazem) e alguns termos de linguagem rebuscada mesclados, o livro parece incompreensível nas primeiras páginas. Para os que acham necessário, na edição brasileira existe um glossário ao final do livro pra iluminar vossos rassudoks e fazer o leitor ponear o que está lendo. Preferi não ler o glossário antes já que queria experimentar toda a sensação de estranhamento que o autor queria que sentíssemos (nas edições inglesas nunca houve um glossário) e usar de dedução mesmo. Logo que se pega o ritmo na leitura, a dedução se torna mais fácil e o livro mais compreensível e horrorshow, e torna o mundo das personagens mais crível. Deixo aqui meus cumprimentos a tradução brasileira que fez o máximo possível para que a tradução do Nadsat fosse eficiente sem perder os significados e sentidos originais, então não pulem as primeiras páginas do livro e leiam as notas de tradução pois elas são interessantes e esclarecedoras.

O segundo grande estranhamento do livro foi que, como muitos, eu havia assistido primeiro ao filme de Kubrick e, ao contrário da versão cinematográfica, as personagens todas são muito jovens ( Alex tem apenas quinze anos quando vai preso ). Isso é um ponto fundamental no livro, pois apesar dos hábitos extremamente aquém de sua idade, Alex, seus droogs e as gangs de modo geral são sempre vistas como uma delinquência juvenil, uma diversão sádica adolescente que vai embora quando eles crescem e precisam arranjar empregos ou vão presos. Alex, Vosso Humilde Narrador, não se vê como um criminoso sujo como seus companheiros na prisão mas sim como apenas um jovem que faz o que gosta e considera-se acima dos outros por mais paradoxal que isso seja. Até o nome do dialeto que usam para falar é relacionado a isso, pois nadsat é como eles se referem aos adolescentes. Além disso, as preocupações e modos de todos são bastante infantís como estar no alto da moda (o que é considerado de extrema importância no livro), pertencerem a um grupo, serem conhecidos por seus “feitos” e temidos e o fato de falarem em termos antigos e rebuscados como cavalheiros quando precisam passar a imagem de bons rapazes ou de que são crescidos o suficiente.


Laranja Mecânica é, acima de tudo, um livro o qual é necessário muito cuidado para lê-lo, senão é possível que se perca o foco, as questões e o direcionamento aos quais ele leva para se perder e julgar as páginas e páginas de violência sem sentido. Anthony nos leva a questionar a que ponto o ser humano deve ser privado de seu livre-arbítrio para com os outros para que se torne um “cidadão de bem” e se é possível que um “cidadão de bem” se ajuste a uma sociedade onde a violência, vingança e todo o resto é comum e muitas vezes até necessária nem que seja em defesa própria. O principal de todos os questionamentos é: A violência sem sentido ou propósito é tão desumana quanto tirar de um ser as suas escolhas? O que difere um do outro?

Isso se torna perfeitamente claro quando Alex é manipulado e traído do começo ao final do livro.Começa como um adolescente sem escrúpulos e delinquente cujo ideal de diversão é causar o terror nas ruas da cidade com sua gangue. É traído pelos seus companheiros cansados de sua “liderança” e para na prisão, onde é traído também pelos companheiros de cela que o acusam de ter matado outro presidiário. É logo após esse acontecimento, ainda na prisão que ele é submetido a um tratamento que o faz ter uma aversão imensa a qualquer tipo de violência sendo incapaz de reagir ou provocar qualquer ação desse tipo sem se sentir terrivelmente mal fisicamente. Assim que sai da cadeia, seus inimigos criados ao longo dos anos de delinquência voltam para ter dele sua vingança, se aproveitando do estado atual indefeso do então criminoso. Julgado pelo seu passado, também é expulso da casa dos pais. Acaba se encontrando com um destes que foram afetados por seus atos após ser espancado por policiais (alguns seus ex-droogs e membros de gangues, já crescidos e com um emprego que sacia toda a sua vontade de violência), que quer usá-lo em jogos políticos para tirar o governo atual e chamá-lo de cruel desumano, chamando ao protagonista de vítima da sociedade. Ele é apenas uma ferramenta que pode depor a favor ou contra o governo, e é usado como tal assim que sai do tal tratamento. Ele é jogado de um lado para o outro, ora como vítima, ora como um perigo para a sociedade. E isso só depende de quem o está vendo e quais os seus interesses.


Pra não deixar essa resenha (ainda mais) longa e maçante, o veredito é que 199 páginas é pouco para Laranja Mecânica. O livro é pequeno mas não é um clássico a toa, pois leva a questionamentos muito mais grandiosos do que suas páginas. Quem gostou do filme, quem se interessa pelo tema ou quer arriscar ler algo crítico desse gênero, podem ler que não vão se arrepender, o livro está mais do que recomendado.


“Então, o que é que vai ser, hein?”
“E aí, ó, meus irmãos, o show de filme começou [...] E aí dava para videar um velho descendo a rua, muito starre, e aí pularam em cima do vek starre dois maltchiks vestidos no auge da moda atual [...]. Dava pra sluchar os gritos e gemidos dele, muito realistas, e dava até mesmo para sentir a respiração pesada e ofegante dos dois maltchiks que aplicavam os toltchoks. [...] Então, em close, a gúliver do vek surrado, e o króvi fluindo vermelho e lindo. É gozado como as cores do mundo real só parecem reais de verdade quando você as videia na tela”


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