Text Tuesday #4 - Sobre quando eu me dei conta de que minha letra era horrenda

terça-feira, 3 de abril de 2012

(A foto do post é essa, mas se fosse a pedra da roseta capaz de vocês entenderem melhor. Legenda: Oi, eu sou a dona do blog."Esse é o meu garrancho.Isso tá bonitinho ainda, mas tem horas que nem eu mesma entendo essa joça". Tentei ser o mais fiel possível pra sair minha letra do dia-a-dia.)



Oi, eu me chamo Sarah e tenho a letra mais horrível do universo Tá, mentira, eu nem acho ela tão feia assim. Eu já estou habituada, mas coitado de quem pega meus cadernos nas aulas pra copiar. Dramas reais, a gente vê por aqui.

Tudo começou naquela fase em que você escreve a letra S ao contrário e não escreve nem o seu nome direito. Pra uma criança, minha letra horrorosa e tremida era mais do que normal, afinal era fase de aprendizado, e eu como garota logo mudaria o meu jeito de escrever para algo mais socialmente aceitável. Foi quando chegou no pré que meu dilema com a vida começou. E foi no primeiro “posso pegar seu caderno emprestado?” que eu me dei conta do garrancho que eu chamava de letra.



A professora entra na sala, passa as letras maiúsculas e minusculas e você copia, sem segredo nenhum. Minha letra era uma cópia mal feita daquela letra cursiva de professora onde o “a” é redondinho, o “r” tem uma bolinha do lado, o “S” é todo enroladinho e o “k” é ESTRANHO. Eu me esforçava pra manter meu padrão de letras perfeitamente redondas e proporcionais, mas todo mundo sabe que escrever devagar é um saco. Eu me espelhava nas outras crianças (principalmente as meninas) em escrever pausadamente, devagar,proporcional, mas sempre saía um lixo. E eu penava nas provinhas de segunda série pra provar que meu 9,0 na verdade era 10 já que aquela letra meio desconjuntada era um A, e não um O. E tome rabiscar, rasurar, transformar aquele treco que parecia “al” em “d”... E lá ia eu levar represálias. “Letra LEGÍVEL, crianças!” e choviam olhares pra cima de mim.Eu não tenho culpa se letra cursiva é um troço do diabo onde se você aumenta uma letra ela parece outra, e se você escreve junto ou distante demais fica tudo parecendo outra coisa!



Vocês se lembram daqueles malditos cadernos de caligrafia? Eu sempre quis tacar FOGO naquilo. Eu era sempre a primeira indicada pra escrever “gato, lápis, sapato, abelha...” e todas aquelas palavras mil vezes, uma embaixo da outra. E desde aquela época eu já tinha o dom de não conseguir escrevê-las iguaizinhas. Eu via os aplicados sempre com a letra bonita, os bagunceiros com garranchos e eu, alí, no meio. A menina da letra ruim e nota boa, as redações boas mas que sempre geravam “quê que tá escrito aqui, minha filha?”. E sempre as malditas chamadas de atenção pós prova que me deixavam vermelha e morrendo de vontade de voltar pra casa. A pior delas foi quando, na terceira série, eu fui escrever meu nome na prova. Até o Sarah tava beleza, chegou no sobrenome o meu A final saiu parecendo uma droga de um O e eu precisei rasurar. Já na prova eu queria me enfiar num buraco e jogar terra em cima, certeza que iam rir muito da menina que “errou o próprio nome!” (mas, em todo caso, melhor eu rasurar e deixar legível do que no meio da chamada berrarem tudo errado. Meu sobrenome já causa confusão quando eu falo e escrevo certo, quanto mais errado). Dito e feito, a maldita na correção desatou a falar do rendimento da sala e terminou o dia soltando “o nível dessa sala tá tão ruim que teve gente errando o próprio nome!!!” . Todo mundo se olhando e rindo tentando descobrir quem era o imbecil, e eu num misto de vergonha e alívio por ninguém me conhecer e minha fama não ter chegado na escola nova. Pior dia da minha terceira série inteira.



Comecei o parágrafo anterior falando de cadernos de caligrafia, né? Tenho uns até hoje, fico protelando pra usá-los. Desde aquela época eu achava caligrafia um tédio, e com o tempo isso só piorou, e o fato de eu ser menina só agravou. Desde pequena incentivam as garotas a terem letras bonitinhas, organizar os cadernos e ter canetas coloridas e deixam os moleques de lado. Isso só serviu pra me incluirem no grupo deles, onde eu fui até bem acolhida e permanecí um bom tempo. Letra mais feia, risada na aula e ralar o joelho? Comigo e eles. Sarah and the boys, sempre, apesar de algumas amiguinhas inclinadas ao lado “não tô nem aê” sobreviverem. Acho que isso só piorou o fato de eu me sentir deslocada. E sempre aquele sentimento de falha toda vez que precisava pedir o caderno delas quando faltava. Tudo em tópicos, coloridinho, lindo, aquelas letras diferentes que certamente não tinham nada a ver com aquela cursiva bizarra de professora. E eu lá, copiando mais rápido pra sair cedo da sala, comer coxinha no pátio e bater tazo [!]. Daora a vida.



Após a infância, as coisas pioraram pra mim. Bastou eu entrar pro colegial que TODO mundo começou a me perguntar o que eu queria fazer da vida. E embora as minhas respostas sempre fossem diferentes, as réplicas eram sempre iguais: “ah, achei que era medicina”. Lavar louça esse povo não quer, né? E ficou PIOR. Com as lousas cheias de matéria, quando eu me empenhava a copiar, terminava sempre antes de todo mundo. E quando o sinal batia, era sempre a mesma coisa “Quem terminou?” “Eu”. E meu caderno voltava pra minha mão em dois minutos após um “ah...brigado” meio tímido. Traumas, todos eles. Dêem graças a Zeus que blog não é escrito à mão.


Apesar de ser uma menina da letra feia e desorganizada, aprendi a lidar com isso. Sou tradutora oficial do garrancho dos outros, dou um aviso prévio acerca dos meus hieróglifos pras pessoas, tento escrever com calma quando preciso passar bilhetes e aumentei minha paciência com os professores que precisam decifrar essa desgraça, e ouso até dizer que consigo escrever de um modo legível (o que não significa que minha letra fique bonita, isso nunca foi nem vai ser. Quanto mais eu me aplico pra letra ser bonita, mais bizarra ela sai). Claro que os malditos comentários de “Nossa, que letra infeliz!” e “Ah, você pode trazer digitado. O resto eu quero que copie.” e até “Caramba, o exército podia usar isso como código!”ainda existem. Mas copiar rápido, terminar provas mais cedo e comer coxinha no pátio enquanto a quadra não está cheia é certamente uma vantagem. E se tudo der errado, abro um negócio ilegal de venda de receitas médicas falsificadas, fico rica e construo meu império. E vou sambar na cara de todas as professoras primárias com seus “kás” cursivos bizarríssimos.






(Me fala se essa desgraça não parece o cruzamento ente um L e um R?)


5 comentários:

  1. Que preconceito, o K é o mais incoompreendido, ninguém usa ele desse jeito depois do primário.
    Eu sempre curti caligrafia porque achava minha letra feia e invejava as coleguinhas. Na faculdade as pessoas elogiam minha letra, fico feliz >: Mas na pressa só escrevo em letra de forma mesmo...
    Incrível como uma coisa tão boba pode afetar nossa vida, né? Sofrer bullying por caligrafia D: Samba na cara deles mesmo.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Hahaha adorei o post...
    Entendi quase nada da sua letras, mas o conjunto fica tão lindo e chique hahahah
    Adorei!
    Bom, você consegue traduzir até letra de médico, com toda certeza =]
    Adorei teu blog e estou te seguindo =]


    Beijos,
    #Resenha falada.

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  4. Te deixei um selinho no meu blog. Beijos =)

    http://asasliteraria.blogspot.com.br/2012/04/meme-literario-esse-blog-e-magico.html

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  5. foram incontáveis tardes perdidas dentro do quarto preenchendo vários cadernos de caligrafia... Resultado: letra com mutações de humor, as vezes sai bonita as vezes não sai ou cada jeito de escrever parece de uma pessoa diferente.

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