Resenha: Gênesis - Bernard Beckett

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Gênesis
Autor:
 Bernard Beckett
Editora:
 Intrínseca
ISBN:
 978-85-98078-57-1Ano: 2009
Páginas:
 173
Para ler ouvindo:
Deftones - Change


Eu vou ser obrigada a dividir essa resenha em duas partes: uma resenha normal do livro e alguns parágrafos extras, recomendados pra quem já leu o livro (spoooiler). Estarão em branco no final do texto, só selecionar.
Gênesis é uma distopia pautada na filosofia, onde acompanhamos o decorrer de duas histórias simultâneamente. Começamos a história focados em Anaximandra, uma jovem estudante de história que aspira entrar na famosa Academia e para isso é avaliada durante quatro horas por uma banca. Durante o livro, Anax discorre sobre o tema de sua avaliação, Adam Forde, um homem que rompeu as regras da antiga república de Platão e com isso mudou o rumo da história.
No meio de minhas últimas leituras medianas, Gênesis se destacou completamente. Quem acompanha minhas resenhas sabe do amor que tenho por livros distópicos, e não exagero em dizer que foi minha melhor leitura do ano até agora. Com apenas 173 páginas, foi capaz de me atordoar tanto que eu seria capaz de falar  por horas e horas a fio sobre todos os seus simbolismos, entrelinhas e questionamentos. Seu grande atrativo é que a história se encerra em poucas páginas mas continua a se desdobrar detalhe por detalhe na cabeça do leitor. Me atormentou tanto que eu finalmente reabri a sessão de resenhas do blog, ou seja, a coisa é séria.

Anaximandra vive em uma sociedade criada a partir de conflitos bélicos que ocorrem a partir da terceira década do segundo milênio.  Ela, como historiadora e pertencente a classe dos filósofos, nos conduz por uma sociedade pós-apocalíptica e recém destruída pelos conflitos bélicos que consideramos atualmente tão iminentes (como guerras petrolíferas cheias de terrorismo entre o Oriente Médio e os EUA, acrescente importância econômica da China e uma Europa perdida e em crise) que levam a humanidade para o tão conhecido cenário do pânico causado pelas guerras na população. O autor sabe muito bem misturar fatos conhecidos sobre o comportamento humano nessas situações e a história da humanidade com o universo criado por ele, e o que acontece a seguir não é muito diferente do ocorrido em qualquer guerra: Surge alguém para trazer alguma solução instantânea, que nesses casos quase sempre envolve controle populacional, instauração do medo e uma sociedade obediente e fechada que preza, acima de tudo, a proteção de sua terra.
Platão cria uma república fechada chamada Aotearoa, uma ilha onde seus habitantes se cercam de proteção contra o mundo externo para evitar que a peste e outras mazelas os atinjam.  

Quem já leu A República de Platão (o filósofo) vai entender em detalhe o funcionamento da república de Atearoa feita por Platão (a personagem do livro), e abro aqui um espaço para comentar que quase todas as personagens do livro possuem nomes de filósofos e todas possuem nomes que combinam com o que fazem e com seu rumo na história central. Ter algum conhecimento filosófico não é exatamente necessário para ler o livro, mas ajuda na compreensão e no desenrolar dos fatos. Nessa república dividida por classes, os filósofos eram considerados a casta mais alta e privilegiada por serem a classe pensadora e ‘iluminada’ o suficiente para governar a república. O estado era visto em primeiro lugar, enquanto o indivíduo e suas questões pessoais eram ignoradas. Nesse meio, nasce Adam Forde, um jovem considerado inteligente o suficiente para ser um filósofo porém com perigosos traços de insubordinação às autoridade, personalidade e ego. Acaba trabalhando em um cargo de vigia das muralhas da república, quando, por impulso, salva uma garota que deveria ter sido morta assim como todos os imigrantes.

Adianto a vocês que isso não é uma história do tipo “garoto-conhece-garota” e esse é o único spoiler que deixo por aqui, já que isso pareceu decepcionar grande parte dos leitores em reviews. É a punição escolhida para Adam por esse ato tão impulsivo e inexplicável que rege os rumos do livro, e se essa pequena revelação te assustou já se prepare porque esse livro é cheio de plot twists nos dois cenários (o de Anax e o de Adam), coisas inesperadas e muitos, muitos questionamentos que vão virar sua mente do avesso e colocá-la de volta ao lugar umas tantas vezes, até que você não saiba o que o atingiu e que não faça a mínima ideia de como responder a pergunta que está na capa: “O que realmente significa ser humano?”. E é no fim e na releitura (sim, vale a pena ler duas vezes) que você finalmente nota que pequenas coisas estiveram presentes o livro todo, mas que você se deixou levar pelo senso comum e pelo que imaginou e não viu o que se desdobrava ali mesmo. A academia sabe mais do que você imagina. A história completa fora ocultada.

Gênesis me acertou como um tiro pelas costas. Conduziu-me violentamente por todas as suas reviravoltas num final que após muitos e muitos sustos vi chegar com um pesar meio controverso. Recomendo pra quem procura uma leitura rápida e densa. Bem, se me surpreendi? Deixo que Anaximandra os responda:

“eu tento não me surpreender. A surpresa é o rosto público de uma mente que estava fechada” (pg 140)

 Análise: /!\ Aleeeeeerta de SPOILER /!\
A trama principal do livro, a que une totalmente as duas partes, é iniciada quando outro processo comum ao pós guerra se inicia: a população antes amedrontada começa a esquecer-se do que temiam, afinal. São acostumadas a vida na república, tem filhos que não sabem o que foi o temor da guerra e então a crença cega em seus governantes se perde.  Procurando uma solução para isso, acabam por seguir outro princípio platônico: as classes inferiores como trabalhadores braçais são menos dignas por não dedicarem-se ao pensamento. Juntou isso com outro pensamento altamente visto na história, o de que as classes baixas são as únicas possíveis insatisfeitas e que são quem inicia as revoluções. Isso num mundo futurista (mas nem tanto, o que lembra o 1984 do George Orwell, que foi escrito em 1949), acaba implicando na solução mais lógica: máquinas que façam o serviço. Com a evolução dessas tecnologias, são criadas máquinas cada vez mais avançadas, emulando consciências humanas.

Entramos no dilema da I.A., o que mais nos atormenta o livro inteiro. A pena de Adam é ser condenado a viver preso com Art, um robô que se desenvolve ao entrar em contato com humanos e aprender com eles. Quando começam a travar diálogos incríveis sobre a essência humana, o que define uma consciência e a possibilidade de uma máquina de gerar um pensamento, é quando o autor te leva pra cima e pra baixo e você precisa parar, fechar o livro e respirar fundo pra ver se chega a alguma conclusão. Art, ao entrar em contato com o impetuoso e inteligentíssimo Adam, se torna cada vez mais capaz de refutar toda e qualquer convicção básica humana, enquanto Adam procura jeitos de esquivar-se disso. Art desafia Adam a tal ponto que é impossível para ele continuar com sua linha de pensamento,  conseguindo refutar até mesmo o famoso argumento hipotético do quarto chinês*(1). Adam se vê admitindo que acredita que a máquina possa pensar e ter consciência, e que pode desejar assim como ele ser livre. E é quando Art, na minha opinião, torna essa convicção dele a sua própria, traindo-o, traindo uma de suas leis fundamentais (não ferir outro ser consciente) e libertando-se, espalhando sua programação ‘defeituosa’ e possivelmente consciente a outras máquinas, fazendo com que a civilização da época praticamente imploda.
 Enquanto isso, o próprio livro nos testa de forma quase literal. Fez-se um teste de Turing *(2) conosco o tempo todo, e fomos levados a crer que coisas como o interesse pela filosofia, questionamentos e a capacidade incrível de formular respostas levadas pela lógica E pelas sensações são algo exclusivo humano, e levamos isso intrínseco no senso comum. Anaximandra é uma máquina e nem ao menos nos damos conta disso até que o livro se revele, pois ela, assim como muitos, fora infectada pela programação influenciada por Adam se tornando um perigo em potencial. Embora Art nos traga a surpresa e a reação negativa, acabamos por simpatizar com Anax, pois assim como ela nós fomos conduzidos pelas crenças nas histórias comuns e acabamos por descobrir que o universo do livro não era o que esperávamos, o que víamos pelos olhos dela. A associamos com nós mesmos, o erro fatal de Adam.  Caímos no dilema de nos afeiçoar a uma máquina, dilema esse que condenamos por ser óbvio. Acreditem, essa sensação controversa do final vai ser difícil de digerir. Ao final, eu já não tinha certeza alguma sobre o que é ser humano, mas, afinal, não é de dúvidas que se trata a filosofia?
Sobre os nomes:

Anaximandro era um filósofo que acreditava que o universo era feito de uma espécie de matéria infinita da qual todas as outras surgem, e que essa matéria é algo que não foi criado em momento algum, porém existe e é imortal (mais ou menos como um conceito de alma), e se preocupa com a finalidade e se questiona sobre tudo que sai do princípio dessa essência, enquanto Anaximandra por si só seria considerada uma dessas criaturas e se questiona sobre elas.

Péricles foi uma personalidade política Ateniense e incentivador cultural da filosofia, enquanto grande populista. Apesar disso, é considerado um dos motivos da degeneração da democracia ateniense. Péricles no livro é o tutor (também máquina) de Anaximandra, que a delata como risco para a academia e destrói o conceito que Anax tinha com de sociedade, que pensava ser perfeita. Apesar disso, agia em prol da população.


Adam (Adão) salva uma garota (Eve/Eva) e por isso é condenado. Acaba lidando com os dilemas do livre arbítrio ao longo do livro, assim como o Adão bíblico.

Aotearoa é o nome em maori para Nova Zelândia, país de origem do autor do livro.
*(1) : O Teste de Turing consiste em ter três participantes, A, B e C, onde C precisa descobrir entre A e B quem é a máquina. Se ele não conseguir dizer com certeza, a máquina passou o teste. Esse teste causa controvérsia sobre o fato de máquinas pensarem ou não, mas conclui-se de forma geral que máquinas podem, ao menos, ser muito boas em emular uma inteligência e consciência humanos.

*(2) a hipótese do quarto chinês consiste em: uma pessoa que não fala chinês está presa num quarto com uma máquina. Alguém que fala chinês insere um bilhete debaixo da porta, o qual a pessoa não entende, mas colocando os símbolos na máquina ela é capaz de gerar uma resposta perfeitamente aceitável ao bilhete. E se a uma pessoa fossem dados um livro de instruções sobre qual símbolo deve ser respondido com qual, ela poderia responder o chinês perfeitamente, sem ela ou a máquina compreenderem a língua. Essa hipótese é usada para refutar a ideia de que uma máquina que é capaz de ter um sistema de respostas programadas possa pensar e compreender por si, e que onde há gramática não necessariamente há semântica. 

/!\ Fim dos Spoilers /!\

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