Sobre a perfeição, quem sou eu e o mundo flutuante

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Os japoneses tinham um conceito interessante chamado Ukiyo, traduzido literalmente como “mundo flutuante” que correspondia ao mundo boêmio principalmente das noites de Edo (Tóquio). É um mundo na névoa, impermanente, belo, etéreo, reino dos entretenimentos e prazeres, sem associação com o mundo medíocre e banal do dia-a-dia. Um dos símbolos desse universo eram as gueixas, que eram versadas em todos os tipos de arte para entreter, um símbolo de tradição e beleza (a própria palavra significa literalmente artista).  Além disso, o conceito dos Dândis de viver para o prazer e o belo gerou em mim um impulso parecido com o da Marquesa Luisa Casati: eu quero ser uma obra de arte viva.
Olhar-me no espelho sempre foi um fardo. Ele mostrava a realidade e eu queria outras coisas mais fáceis de aceitar do que isso. Quando comecei a ser pressionada por essas coisas, meu ideal de beleza e valor foi modificado para ser fruto do mundo onde vivo, mas não das minhas fantasias (essas nunca foram corrompidas). Sempre fui das artes e das leituras, sempre aérea e sempre distante. Minha mente foi o refúgio onde descobri que talvez eu pudesse sim, ser do jeito que queria: do jeito irreal das personagens que lia ou do jeito etéreo do que desenhava inspirada por mitologias diversas. A minha beleza era atingível e libertadora e me entreguei pra ela: roupas, cabelo, maquiagem, tudo.  O olhar do espelho passou a ser meramente ilustrativo, sem muitos significados atrelados e eu me senti de acordo com a minha alma. No dia em que percebi que eu era como sonhava foi como ouvir um grande silêncio após dizer o tal do “espelho, espelho meu...”

No entanto, eu sempre fui perfeccionista e isso vai ser minha ruína, eu sei. Ainda não me sentia boa o suficiente nem perfeita.  Rompi com o mundo “real” então, para viver dentro da minha visão filtrada dele como um quadro impressionista de uma paisagem qualquer, que é uma visão não concreta de algo que existe de verdade. O mundo que habito ainda é real mas é coberto de significado e cheio de uma esperança otimista de que tudo é (mais) belo, calopsia pura. Depois de me modificar, passei a ver o mundo de outra forma, e não só a mim. Coloquei um cenário na composição e já não era mais sozinha como um desenho num fundo branco.



Esse não é um texto sobre alguém que conseguiu se livrar das cobranças do mundo e ser plenamente feliz.  Tive a súbita epifania de algo que depois eu saberia que foi verbalizado genialmente pelo Chuck Palahniuk em Clube da Luta: “Um momento é o máximo que se pode esperar da perfeição” e eu vivo de momentos onde posso sentir isso e é nisso que mora minha satisfação em ser quem eu sou. Por fora eu posso não ser exatamente como eu quero porque a loteria biológica me privou de muita coisa que a vida me fez desejar, mas eu me usei de tela, aceitei que talvez não tivesse o material adequado mas eu mesma me pintei. E o problema de ser artista e arte comigo mesma é que a arte nunca é o que a gente esperou que ela fosse ser e nenhum artista se livra do dilema “ISSO TÁ UMA DESGRAÇA” ao finalizar tudo o que faz, mas ao menos posso ser sempre melhor. Passei a documentar meu processo.


Eu nunca gostei de tirar fotos minhas. Quem me conhece hoje deve achar isso um absurdo, mas é verdade. Eu recebia das fotos a mesma sensação de olhar frio do espelho e achava que não valia a pena me ver dessa forma parada, congelada no tempo, sendo tudo que odeio. Nessa de congelar momentos foi onde eu comecei a primeiro registrar as coisas que fazia em mim e depois compor entre mim e o mundo momentos que me comportassem e encaixassem com quem eu sou. Descobri que talvez eu pudesse saciar minhas expectativas vez que outra por breves momentos onde transcendo de mim pra arte e de arte pra mim.  Em uma fotografia onde eu estou eu sinto que sou única e insubstituível porque ela precisou de uma mente e uma ideia só minha pra ser real e saiu da minha cabeça para o mundo. Quem se interessar verá com os próprios olhos o que sou e se souberem enxergar, saberão como me sinto.  É impossível dissociar a atmosfera do cenário de mim e do que eu sou, e naquele momento eu não sou bonita e nem feia, eu sou arte. Milimetricamente composta, parte da cena, necessária, indispensável e idealizada por mim, sempre em progresso e querendo transportar o espectador pro meu mundo.


As outras formas de arte me aliviam e me fazem continuar (e por isso escrevo, desenho e todo o resto)  mas os momentos de perfeição onde transcendo e me transformo são as fotos, a música e a dança. Enquanto as outras formas servem para me pintar, essas constroem o meu cenário e me colocam no espaço e por isso amo a todas igualmente: sou polímata porque se não fosse não viveria. Mesmo que eu não seja profissional ou digna de nota no que faço, essas coisas me são quase intrínsecas. Seja pelo timbre da voz, atmosfera da fotografia ou por sentir meu corpo responder ao som e ao que sinto, naquele momento me sinto bela e perfeita e me hipnotizo ao mergulhar em mim. Por ser eu, por estar onde estou, por ter minha voz, por ver o mundo como vejo, por só de brincadeira passear delicadamente com as mãos no ar como uma gueixa faria... por ver excepcionalidade no dia-a-dia e torná-lo um verdadeiro Ukiyo. Reservo-me assim ao direito de não ser real, bonita, feia, inacabada, palpável. Vivo a vida com os olhos do mundo flutuante e em breves momentos eternamente congelados onde eu sou o que quero e estou no mundo em que imaginei. No meu Ukiyo eu sou perfeitamente insubstituível como arte e como artista, e é pra ele que eu fujo quando me sinto mal, é nele que sei meu valor.



... Living only for the moment, turning our full attention to the pleasures of the moon, the snow, the cherry blossoms and the maple leaves; singing songs, drinking wine, diverting ourselves in just floating, floating; ... refusing to be disheartened, like a gourd floating along with the river current: this is what we call the floating world... (Asai Ryoi – Ukiyo Monogatari)
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