Meu cabelo, um caso à parte

domingo, 29 de setembro de 2013




Bem, lá vai mais um post desabafo sobre a vida como uma pessoa ‘visualmente destoante’, e esse é especial sobre algo que faz parte de mim desde que nasci e que destoa visualmente junto comigo há algum tempo: meu cabelo.  Quem me conhece sabe que eu já passei por mil cores e combinações e continuo nisso sem previsão de parar. Bem, se a cada comentário feito sobre ele eu ganhasse cinquenta centavos eu estaria escrevendo esse texto de um café na riviera francesa, mas infelizmente eu escuto de graça mesmo. Sete anos atrás, eu que já meditava sobre a ideia a algum tempo decidi começar a pintar o cabelo e com isso também comecei a viver situações peculiares as quais todo mundo que já fez ou faz parte desse meio ‘hairdye’ conhece muito bem. Não me levem a mal, eu sei e sempre soube que a cada escolha de visual “”não convencional”” (sim, com muitas aspas) que você faz, você acaba chamando mais atenção negativa e positiva e precisa lidar, mas existe uma em especial que me incomoda um pouquinho a cada vez que se repete: a dissociação entre mim e o meu cabelo.




Que jogue o primeiro tubo de tinta Special Effects quem já pintou o cabelo de cor fantasia e nunca escutou um “me dá seu cabelo”, “sem as cores no cabelo não é você” ou até o bizarro “sou fã do seu cabelo”.  Isso é terrivelmente comum, mas também é estranho pra quem ouve. Eu consigo conceber a possibilidade de alguém realmente gostar do meu cabelo e não de mim (acontece com frequência) e de que meu cabelo é algo que desperta opiniões por aí, mas é muito assustador quando pessoas não se contentam em olhá-lo e começam a me adicionar no facebook e me seguir no twitter porque querem receber mais atualizações e acompanhar cada mudança...do meu cabelo. É pior ainda quando começam  a se aproximar de mim por causa disso,  como se eu fosse um acessório cool de se ter ao lado, olhar minhas fotos pra dizer “vim aqui só pelo cabelo” e a me chamar por nomes relacionados a ele, como se eu fosse um filme com subtítulo:  Sarah – A menina estranha do cabelo colorido. Claro que muitas vezes são apenas elogios colocados de uma maneira esquisita e sem maldade e muitas vezes isso nem chega a me ofender porque não é nenhum big deal, mas quando isso se repete é desumanizador e um “adorei o seu cabelo” seria bem menos traumático.  Ele pode ser uma parte minha que você gosta ou não gosta, talvez seja a única parte que você aprova, mas não nos dissocie porque nós não somos entidades separadas.


Pros que já vierem com os pensamentos do tipo “ela pinta o cabelo e não gosta?” ou “não sabe lidar com a atenção então para, ué” lhes digo que gosto de cores no cabelo e as tenho, o resto vem de brinde e eu tenho todo o direito de gostar ou não. O cabelo é MEU e está na minha cabeça por razões minhas. Eu não vou fazer enquete pra decidir cor, não vou te dar, emprestar, não vou andar com você no recreio e nem ser uma vítima do meu estilo porque eu não quero e nem pretendo ser mais uma daquelas pessoas que geram diálogos do gênero: “Nossa, o que ela faz pra ser admirada?” “Ah, ela pinta o cabelo...”.   Ele é só uma das partes que me compõe e eu tenho muito, muito orgulho da minha identidade visual mas eu não sou só isso e nem vivo pra isso, ele é apenas uma das minhas mil expressões. Como disse meu primeiro professor de filosofia após nosso primeiro contato (e após perguntar se era peruca, claro) “embaixo desse cabelo azul existe uma mente pensante!” e é dessa mente que vocês se aproximam quando procuram contato, e não do meu cabelo. Eu faço mil coisas, sou mil coisas, tenho gostos e predileções e não vivo em função das minhas cores na cabeça, elas são danos colaterais do que eu sou e gosto. Todo o meu amor pra vocês que vieram pelo cabelo e ficaram pelo resto, mas se você é uma das pessoas que nem olharia mais na minha cara se eu o pintasse de preto, por favor saia das minhas redes sociais, pare de falar comigo (porque sou eu que realizo a função de falar enquanto meu cabelo ainda não sabe responder vocês, paciência) e olhe pro meu cabelo e pro meu estilo de longe enquanto ele te agradar apenas. O cabelo ainda é da Sarah e não ao contrário.



The Sarah Experience: Cute is the new Punk

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Eu não sou blogueira de moda, já inicio esse post com essa afirmação. Estudo o design de moda, moda é uma parte importante da minha relação com o mundo e com a minha expressividade, mas não é do meu interesse focar apenas nisso e deixar todas as minhas outras pluralidades de lado. Deixando isso claro, vamos lá.

Essa semana, quem tem a minha ilustre pessoa no facebook foi bombardeado quase todo dia por selfshots de corpo inteiro minhas no espelho da minha faculdade. Eu tenho o costume de fazer isso  às vezes (só quando eu estou fabulosa, beijos), mas nunca com tanta frequência. Deixa eu explicar: foi tudo pela ciência.
Minha semana em roupas

Quem me conhece sabe que eu sou uma miscelânea de estilos e influências: do goth e punk até as coisas mais fofas e cor de rosa passando pelas streetwears japonesas e por coisas do passado em todos os sentidos (do rococó ao rockabilly, anything goes).  Por um acaso no começo dessa semana estava fazendo um frio desgraçado, e eu só queria saber de ir pra faculdade com a maior quantidade de roupas possíveis, o que me levou de volta pra um dos estilos do meu coração: o lolita (moda de rua japonesa, nada a ver com a famosa Lolita, de Nabokov). Após os dois primeiros dias de frio eu reparei  que as reações a mim eram absurdas  mais do que com qualquer outra coisa que eu usasse. Decidi ir a fundo e usar apenas esse estilo todos os dias para descobrir os fatores que desencadearam esse resultado. Pra mim foi estranho , afinal roupas “de boneca”  ou “de conto de fadas” (como as pessoas costumam se referir) nunca foram a minha imagem particular de algo reprovável ou símbolo de delinquência. Segui com a minha experiência pela semana toda porque simplesmente não combina comigo esse negócio de não procurar os significados nas coisas todas.

Eu tenho sido acusada de ser uma distração e visualmente destoante desde os meus primórdios independente do que eu vista, e observando que as ‘tendências’ da moda estão abraçando boa parte daquilo que considerava coisa de weirdos (do moicano e undercut até spikes e roupas como a famosa calça listrada que dominou as ruas nos últimos tempos) acho que isso ocasiona uma certa inversão de valores. A maioria das pessoas olha torto pra qualquer coisa mais ou menos alternativa mesmo, mas até mesmo na assim chamada moda alternativa correm os padrões sobre como ser estranho do jeito certo e cool e talvez essa minha escolha seja no momento a que foge a regra do ‘certo’ assim como antigamente quem se cobria de preto e em spikes dos pés a cabeça fugia.  Se a imagem desejada é a de edgy, extravagante, sexy, descolado ou sei lá, as pessoas tanto alternativas quanto mainstream parecem não saber de onde surgiu aquela criatura bizarra com roupas de criança de antigamente. Uma observação mental que fiz é que a minha geração e as mais jovens desenvolvem sede de se tornarem mais velhas cada vez mais cedo, e daí talvez a repulsa por tudo “de criança”. Some isso com a vontade de ser über moderno e está aí gerada a repulsa por roupas de estética antiquada e que podem remeter ao infantil.

Um efeito colateral bizarro disso tudo é que fui berrada na rua como N U N C A ouvi antes. Desde “QUE PORRA É ESSA?” até “PASSOU DA IDADE DE BRINCAR DE PRINCESA” e passando por “OH LÁ A BONECA HUMANA”, essa semana foi o caos nesse sentido. Quando eu não estava ocupada demais ouvindo Eagles of Death Metal e tentando não dançar no meio da rua, acabei me afastando da imagem da princesinha de contos de fadas e me aproximando das cortes reais verdadeiras destilando meu veneno porque não sou obrigada, ponto. Mais do que entendo olhar pro armageddon em forma de madeira que eu chamo de salto dos meus rocking horse shoes, entendo achar bizarro, mas se ofender vai ter que aguentar a coisa baixinha com roupa de boneca fazendo você passar vergonha no meio da rua, e isso é engraçado. MUITO.  Como pra toda regra há exceção, duas categorias de pessoas que ainda não foram muito influenciadas pela visão atual do mundo continuaram me amando como sempre: velhinhas e crianças. Velhinhas me adoram na rua com um sentimento quase nostálgico, enquanto crianças pequenas sempre acham que minha origem se deu quando alguém balançou um livro de contos de fadas e eu caí de lá.  Lei da compensação: alguém tinha que me amar.

salto apocalíptico do RHS

Ao fim disso tudo muita gente me elogiou, mais gente ainda riu e comentou de mim pelas costas e eu descobri que enquanto a maioria das pessoas busca nas referências do passado a imagem de rebelde e transgressor que está em voga, o polo totalmente oposto disso atualmente é o que mais causa o espanto, mas não é o espanto desejado, aquele que vem seguido de “nossa, que diferente...quero ser único assim”: é o espanto horrorizado genuíno,  até meio cheio de repulsa, nada cool. Após essa experiência totalmente inesperada e conduzida com sucesso, a sensação que ficou disso tudo é a de que quando eu resolvo romper com essas obrigações de ser cool, moderna, sexy e “adulta” tanto pros meios mainstream quanto pro alternativo (que seguem mais ou menos as mesmas regras) eu sou a estranha para o mundo e entre os próprios estranhos, uma contracultura dentro da outra, algo que apenas os poucos que fazem parte disso ou os mais desprendidos entendem e apreciam. Sigo chocando as pessoas com a minha ousadia em usar babados e rendas. Cute is the new punk. God save the queen.

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