Sobre Ramonização, cópias e porque eu não sou uma blogueira de moda

quarta-feira, 23 de outubro de 2013



Nessa minha andança pela vida usando estilos alternativos (e agora principalmente na faculdade) muita gente sempre me pergunta se eu tenho blog. Eu juro que isso é pior do que quando, na minha infância, as pessoas faziam aquelas perguntas idiotas que ninguém nunca entendia do gênero “setembrochove?” ou “você é bobo ou quer um real?” que nem quem perguntava sabia o que era e só serviam pra constranger. As pessoas sempre esperam que você, pessoa que se veste estranho (meu caso) ou com ar de ‘fashionista’ tenha um blog... de moda. É assim, museus têm lojas de souvenir, executivos têm cartões e eu, por tabela, preciso ter um blog de moda.


E eu não tenho.


Eu tenho um blog que vez que outra fala sobre moda, da mesma forma que vez que outra eu escrevo contos sobre paranoia e resenho livros. Eu gosto de moda, claro, senão fazer faculdade de design nessa área seria puro masoquismo acadêmico, mas não é sobre o que eu quero estar fadada a escrever sempre, então quando essa pergunta vem eu sempre fico com aquela cara de pessoa que pegou o elevador e estava dançando e outra pessoa entrou lá do nada. Eu fico naquele desconforto e entre o desviar o assunto, o fingir que não é comigo e o silêncio constrangedor eu sempre sou obrigada a mandar um “Tenho, até... Mas não é de moda” só pra ouvir aquele “...ah, tá” e a pessoa prosseguir com a sua vida.


 A grande razão pra eu não fazer um blog de moda é que eu não acho necessário ou construtivo. Digo, eu entendo quem tem os seus, certamente ajuda muita gente e eu certamente esbarrei em um ou outro desbravando a internet afora, mas não acho que o mundo precise de mais um. Vocês, blogueiras e blogueiros decentes, continuem fazendo seu bom trabalho e por favor não me levem a mal, mas a cena num geral me irrita. Eu odeio essa postura da maioria dos blogs de querer ser uma espécie de “vou te ensinar a ser eu em cinco passos” ou “como parecer diferente, criativo e original sendo o primeiro a usar algo na sua turma (porém que já foi feito e refeito por meia internet, mas ninguém precisa saber)” um saco.


Explicando melhor, eu acredito que blogs são algo essencialmente bom porém às vezes usados e/ou interpretados para finalidades ruins, uma espécie de força jedi que quando você resolve mirar pro lado negro, a coisa desanda. Eu acho ótimo, de verdade, que as pessoas tenham espaço pra mostrar seu estilo ao mundo e quebrarem esse mito de que as revistas são as únicas que podem mostrar a moda e o resto é descartado, mas quando esses blogs resolvem ser uma versão das revistas de moda só que com spikes, tá na hora de ver direitinho isso aí. A “ramonização” que se tem feito das coisas é algo que me irrita um pouco. Moda pra mim sempre foi expressão, um ato quase mágico de transformar aquilo que você gosta em todas as áreas da vida visível logo de cara, como se fosse um resuminho do seu humor, uma “bio”  do twitter na vida real e visual: as pessoas vêem, elas sabem. O problema é quando todas essas bios viram, como no twitter, o famoso “londres, café, tempo frio, livros” (não sabe nem o que gosta em Londres, toma café a cada virada de século, mal lê e fica choramingando quando o tempo esfria).  É desperdiçar espaço visual útil pra sua própria expressão e trocar isso por fazer um tipo. É desperdiçar a pessoa que você é pra fazer um cosplay de uma com interesses nada a ver com os seus só porque você acha que ela parece legal. E você nem sabe se ela é mesmo legal porque não conhece nada do que ela faz. É tipo tatuar kanji sem saber o significado, você tá querendo dizer "amor, força, lealdade" mas quem entende sabe que tá escrito "sopa de frango com arroz" e não adianta negar.



Basicamente, é comprar a camiseta do Ramones já rasgada sem conhecer nem Blitzkrieg Bop só pra fazer aqueles visuais com mil adjetivos em inglês:  “um look rock chic, inspirado nas punk rockers dos seventies e na streetfashion atual” . Socorro.


Eu sempre fui a favor da liberdade visual e nunca, jamais, em tempo algum deixei de dizer pras pessoas onde compro minhas roupas, como faço meu cabelo ou como customizo algo só pra ninguém se vestir como eu e dia desses me peguei ressentida por algumas garotas que decidiram que queriam se inspirar em mim do mesmo jeito que você se inspirava na wikipédia pra um trabalho do ensino fundamental. Estranhei meu comportamento e conversei com algumas amigas, o que me fez pensar que eu não gostei dessa atitude não porque me acho dona ou patenteadora das coisas que faço ou uso (nunca fiz questão disso) ou, como diriam as mulheres do funk, porque tenho “as inimiga” e “as recalcada” pagando pau, foi porque eu me senti usada do mesmo jeito que aquele aluno bom de física da sala se sentia usado nas provas: ele fez todo o cálculo e aí alguém olhou o resultado por cima do ombro e copiou só a última linha. O resultado foi o mesmo? Foi, sem dúvida alguma, mas assim como meus professores eu só considero isso meio certo.



Eu acho desnecessário ensinar as pessoas a parecerem como eu sou sem passarem por um processo de pensar bastante, de escolher roupa no pânico do último minuto, de juntar seus próprios gostos, de olhar outras pessoas e pensar se aquilo combina com você ou não. Toda vez que alguém pergunta onde eu compro roupas eu dou risada porque eu quase não compro em lojinha virtual, ou eu faço ou eu garimpo provavelmente nas lojas onde todo mundo também compra, só que depois de um tempo nessa vida eu adquiri a habilidade de garimpar coisas já pensando na customização. Eu sinto que é um desperdício da minha própria pesquisa quando a pessoa que tenta seguir um manual do (meu) estilo e só pega o bonde andando, veste e não sabe que eu usei aquela pena no cabelo porque ela é inspirada nas flapper girls dos anos 20 (e eu amo charleston e jazz), misturei com um vestido e meia-calça rasgada inspirado nas kinderwhores dos anos 90 que eu escolhi enquanto dançava Hole no quarto, que eu calcei o salto vermelho e coloquei um camafeu na roupa enquanto ouvia “antiquehighheelreddollshoes” do Rasputina e que eu amarrei um cinto de lacinho na coxa porque no dia eu (que nunca havia pensado nisso antes) achei que ele ia ficar bonito como garter e que fiz minha maquiagem sem nem pensar no resultado, só experimentando.  A coisa perde todas as particularidades deliciosas que faziam ela ser uma forma de expressão e quase uma arte e é transformada num visual vazio que não só não diz nada sobre quem vestiu como o que ela entendeu da coisa toda é tão raso que cabe em hashtags: #vintage #cute #fashion ou coisas do gênero.


Todo mundo nesse planeta conhece algo e sabe de algo que você não sabe. Todo mundo tem uma gama de gostos única que mesmo que alguém se pareça muito contigo não vai conhecer ou gostar ou vivenciar TUDO o que você vivenciou. Todos possuímos gostos próprios que se misturados poderiam gerar combinações incríveis, rostos diferentes que podem gerar maquiagens inusitadas, alguma peça de roupa que pode ser desmontada e feita em outra, todo mundo é cheio de possibilidades e é um desperdício não vasculhá-las todas e não revirá-las mil vezes só porque é mais fácil ficar na sombra de uma ou outra blogueira e ficar procurando as peças de roupa exatamente iguais as que ela usa pra fazer combinações iguais as que fez.

Eu tenho quase o mesmo guarda-roupa há anos e eu redescubro ele todo santo dia  e é por isso que eu não vou fazer desse espaço lindo e maravilhoso que eu tenho pra escrever um canto pra eu fingir que tenho a pretensão de ensinar as pessoas que “não tem estilo” a “serem mais fashion” (lê-se, ditar a minha moda como se eu fosse uma revista de tendências e se o meu jeito fosse o único certo e todo mundo quisesse ser eu). Caso os caminhos de estilo meus e seus se cruzem em algum ponto, eu vou ficar feliz em te dizer onde comprei tal roupa ou sapato, mas eu vou ficar mais feliz ainda de olhar pra uma foto sua com essa mesma peça e pensar ‘poxa, eu nunca pensaria nisso!’.  Não existe um diferente certo, e já que nós somos os ‘errados’ e ‘esquerdos’ por natureza, espero que nós, os supostamente alternativos e inconformistas, sejamos capazes de tentar mapear quantos tipos únicos de “errado, inusitado, diferente e impensável” existem no mundo. E eu espero que morramos tentando descobrir quantos números existem nesse infinito. 

1 comentários:

  1. Pior de tudo é justamente isso: as pessoas que supostamente seriam alternativas, deixarem de ser elas mesmas como qualquer outra pessoa das quais elas olhariam e pensariam "são todas iguais, não quero ser assim" para simplesmente copiarem outros "alternativos" para parecerem "cool" e acabar sendo um bando de gente "alternativa" tudo igual do mesmo jeito. Existir jeito "certo" de ser alternativo é a morte e cruz da criatividade e do amor próprio. Enche o saco essa cagação de regra de tudo quanto é lado...daqui a pouco vai ter blog dizendo como você deve dizer apropriadamente um "foda-se"... se é que já não existe um manual de ~como empregar de maneira cool palavrões no seu dia-a-dia~ hahaha Oh God, why?!

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