Ugly

domingo, 20 de outubro de 2013

Este é um conto sobre auto-estima,baseado numa música homônima do The Smashing Pumpkins e naqueles sentimentos que costumam nos envolver de madrugada. Espero que gostem.


Ugly


Não sei ao certo, mas creio que começou apenas como um pequeno ponto preto em algum dos meus órgãos internos. Era quase imperceptível, mas era um diagnóstico horrível ainda assim. Eu não posso me lembrar do choro de minha mãe ou das expressões de desalento de todos na sala quando souberam que eu seria uma decepção (afinal, na época isso ainda não era visível), mas ficou marcado em minha mente e eternamente associado que a resposta da vida a mim é desconfortável, é sempre um silêncio constrangedor que me recebe da pior forma.  Assim como na vez em que cheguei à vida, passei o resto da minha existência respirando fundo, entrando em salas e acompanhando os olhares de espanto, os rostos se virando uns para os outros como se trocassem confidências sobre o que havia acabado de acontecer. E eu sabia que esses silêncios cheios de palavras implícitas eram sobre mim, seriam sobre quem mais? E então, como no parto, tudo acabava com meu choro. Era a minha sina, afinal.

À medida que cresci sentia que as manchas tomavam o meu interior cada vez mais, mas nada foi pior do que quando elas surgiram sobre a superfície da minha pele. Eu me recordo que foi exatamente na época em que comecei a ter mais contato com o mundo, era como se eu fosse alérgica a ele. No começo eu me sentia normal, mas isso desencadeava outras coisas em mim, isso era o começo... Digo, eu realmente queria ser uma pessoa admirável, bonita e encantadora e era uma qualquer que passava inconspícua, mas havia algo pior que ser ignorada e foi quando os hematomas se tornaram visíveis que eu soube que ser desprezada ainda era pior, mas não sei se um foi consequência do outro. Eu nasci assim, nasci fadada a esse destino infeliz de escurecer cada vez mais, como um tempo calmo que se fecha ao esperar da tempestade. As manchas davam a minha pele um aspecto arroxeado que evoluía para o preto dos machucados profundos, como se eu apodrecesse em vida a cada dia que passava. Elas nunca faziam mais do que isso, eram um problema totalmente visual mas me perturbava e enlouquecia a cada dia que passava, eu era horrível. Eu tinha medo de olhar o espelho, tinha asco e repulsa daquilo que me olhava de volta. As pessoas próximas a mim se afastaram, tinham medo de se aproximar mais do que o seguro e tinham medo da minha aparência. Afinal, que diabos eu poderia ter feito para ser assim? Eu jamais escolheria nascer desse jeito...

Roupas, maquiagem e tudo o que eu podia arranjar escondiam o necessário, mas nada jamais me tornaria uma pessoa normal, agradável, admirável. Por mais que eu escondesse, algum movimento errado, algum acidente e logo todos perceberiam que eu era feia. Lembro-me de no começo de tudo usar camadas e camadas de maquiagens e ficar quase feliz quando conseguia esconder convincentemente o que eu realmente era, mas isso nunca seria o suficiente. Eu nunca seria como as outras pessoas, tão livres, sorridentes, despreocupadamente caminhando, rindo e seguindo suas vidas sendo bonitas e amáveis e aproximando umas as outras, enquanto eu continuava a me esconder cada vez mais.  Tenho e sempre tive aptidão para fazer o que quisesse, mas o grande problema era querer. Nada me faria sair ao sol, deixar a luminosidade revelar cada um dos meus defeitos e quão repulsiva eu era e sou. Pintei as paredes do quarto de preto e a cada dia que passava eu me fundia e me camuflava mais a elas e àquele ambiente, meu refúgio, só meu.

Jamais fui capaz de me aproximar de quem quer que fosse. Embora algumas pessoas alegassem não ver nada eu sabia que eu escondia muito bem e que assim que deixasse escapar algo sobre o meu problema, eles notariam o que eu era realmente. Quando elas se davam conta de que quando eu desmontava o meu ato diário e deixava a água levar minha maquiagem e minhas lágrimas eu era realmente um nada, elas próprias tinham o trabalho de se afastar em busca de alguém com um sorriso mais vivo, olhos mais expressivos, alguém que mal se esforçava para ser maravilhoso e ter todo aquele 'algo a mais' enquanto eu passava horas buscando ser apenas aceitável. Todos os que se aproximaram de mim era por falta de companhia melhor, essa certeza pautava a minha vida e me protegia das decepções. Eu era como uma sala de espera: desagradável e nunca onde as pessoas queriam estar, mas um lugar por onde transitavam apenas quando obrigadas. Ninguém jamais iria desejar isso pra si, todos orbitavam ao redor das pessoas bonitas e ah, como eram encantadoras... Enquanto isso, eu tentava encontrar vontade para permanecer viva. Vez que outra eu tinha a impressão de que as manchas retrocediam bastante e haviam dias onde eu mal as notava, mas era só eu perceber um ou outro olhar atravessado ou risinhos para olhar de novo e perceber que nada havia mudado. Esse sentimento sempre voltava, e as manchas vinham com ele.

 E foi assim, de um dia para o outro que eu senti que não havia solução. Cegar-me só me faria mais frágil e cegar o mundo era trabalhoso e não me faria sentir mais bonita ou amável. Entre o dormir e acordar, sonhei que era linda como flores e garotas nos verões de sua juventude, e então o inverno chegou a mim e foi me enchendo de preto como a água faria preenchendo um aquário vazio, como a depressão preenche uma mente ociosa. Acordei apavorada, e entre gritos verifiquei que a imagem que me olhava de volta no espelho era inteira feita das manchas e hematomas que tanto tentei esconder, da cabeça aos pés, quando olhei-me nos olhos através do espelho e até eles estavam totalmente escurecidos, senti algo dentro de mim morrer... o pânico me fez gritar como nunca antes, quebrei o espelho, quebrei-me com ele. Tentei destruí-lo, mas isso só fazia fracionar a minha imagem horrível, aumentar os pedaços que refletiam minha imagem horrorosa, aumentar meu terror. Quando caí sobre o vidro, notei que meu sangue jorrava de um roxo escuro que coagulava preto, até isso, até o meu sangue, depois minhas lágrimas também, tudo, até o que estava dentro de mim, tudo era preto, tudo, tudo, TUDO... Eu nunca seria nada, eu sempre seria substituível, sempre uma sala de espera, sempre com o que as pessoas se contentam e nunca o que aspiram para si... Ah! Isso nunca, nunca mudaria! Enquanto fitava o sangue descendo pelos meus braços através do espelho quebrado, fui tomada por vertigens e deixei minha consciência fluir e fugir pra longe, bem longe de mim mesma enquanto observava minhas ruínas de diversos ângulos refletidas nos cacos de vidro pelo chão.

...


A sedação me impediu de acordar com o mesmo pânico que me fez desmaiar, e só deus sabe os horrores que se passaram em minha mente até que eu pudesse voltar desse breve coma. Eu insisti para que me deixassem em paz , tive medo que isso piorasse a minha situação e meu quadro já gravíssimo, tive medo de nunca ter a chance de ser bonita. Todos me olhavam como se nada fizesse sentido, como se todas aquelas pessoas que me convenceram, me ignoraram, me descartaram e viram o quão horrível eu sou estivessem mentindo, como se fosse insanidade... Foi então que questionaram que quadro grave era esse, afinal. Nenhum deles parecia se surpreender e após diversos exames foi constatado que não havia nada, nada de errado comigo ou meu corpo. Minha pele era normal, meus órgãos estavam intactos... Você acredita? Fiquei feliz por alguns segundos, mas depois me dei conta de que esse é sempre o começo, não é? Não há problema algum, mas também não há nada que valha a pena ou mereça destaque, não há nada errado, mas também não há nada certo...Eu nunca serei nada...


Você vê? Elas estão voltando mais uma vez...Elas jamais me deixarão...

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