Eu, frágil, luto.

sábado, 30 de novembro de 2013


Eu, frágil, luto.


Ainda que sozinha, luto as batalhas perdidas de quem está face a morte e tudo aquilo que é impossível compreender. Aquelas malditas batalhas solitárias travadas num quarto escuro entre você e o sentido da vida. Brigas retóricas, travadas como ecos, a sua voz e nada mais contra o silêncio implacável do desespero, as mil perguntas sem resposta.

O pior do luto não é quebrar, é constantemente varrer os cacos de si próprio para evitar o ridículo de ter se deixado cair em primeiro lugar, afinal, ninguém cai. Existe uma pequena arca onde as mágoas devem ser guardadas e o resto é vida que segue. Sinto que afundo e da superfície todos gritam "levanta!" mas ninguém mergulha para me resgatar, com medo de encontrar as naus de mágoas que afundou para finalmente poder cobrar de alguém que se levante. Eu, como Lázaro após o chamado, levanto-me num esforço que transcende a vida, mas não agradeço a motivação nem agradeço a cura ou ressurreição milagrosa: tivesse antes ficado submersa e aumentado o nível do mar em algumas lágrimas, tivesse antes tido tempo de gritar, repousar, sofrer até boiar inconsciente ou enfim viva à superfície, mas a pressa da vida que imperativamente tem de seguir me levantou de qualquer jeito e sou algo perdido entre o viver e o morrer, um cinza nessa vida preta e branca que não faz mais nada a não ser seguir. Não andem descalços e desprotegidos perto de mim: fui mal colada e posso ruir a qualquer momento, ferindo os passantes com meus cacos e pedaços. E ai de você se sangrar como sangro, porque ninguém mais sangra, ninguém mais sente, tudo a ser feito é seguir.

Quebrei-me, voltei ao quarto escuro, caí, me deixei vencer, peço que não insistam para que me levante. Talvez o pior da morte não seja nem ela em si, mas o fato de que cada morte ao seu redor te rouba um pouco do viver quando, face ao inevitável e obscuro, o mistério do adeus derradeiro se torna apenas mais algo que se deve ignorar, passar por cima e ir em frente no dia seguinte. A cada morte que acontece ao seu redor é você que se obriga a morrer, afinal, só os mortos não sofrem e você também não. Você ignora e segue. Eu talvez não queira seguir antes de me consertar por inteiro, e daqui debaixo d'água já escuto dizerem que talvez eu seja fraca (ah, que desgraça ser fraco!) e não aguente, que talvez eu precise superar. Assim sendo, sou fraca, então. Fraca porque luto, não fujo nem sigo.

Durmo aos dias para não acordar e acordo às noites para não ter de dormir, esperando algo que me salve no silêncio...qualquer coisa que me salve de morrer eu também. Quanto mais me debato, mais afundo. Da superfície ninguém chora o meu luto, pois fui levada pelas tais "águas passadas", convenientemente esquecida e submersa como tudo que é triste e inconveniente. Todos seguem.

2 comentários:

  1. Isso é porque a partir do momento em que você vê algo, você é compelido a fazer algo a respeito e é justamente disso que muitas pessoas fogem. Porque além de terem medo de se enfrentarem sem outra companhia pra "quebrar o gelo" de si consigo mesmo e todo o drama existencial que isso implica, existem diversas questões/situações na vida em que não podemos fazer coisa alguma e afinal, quantas delas tem a coragem de encarar a verdade de que ninguém, NINGUÉM sabe da onde veio muito menos pra onde vai, que todos os objetivos de vida que elas perdem tanto tempo fazendo, lutando 30-40 anos da vida para "serem alguém", na verdade não leva ninguém a ser coisa alguma nem a escapar do fato absoluto de que vão perder aqueles que amam assim como também vão morrer um dia?

    Que nós, que somos tão superiores e senhores dos nossos destinos, tão avançados em tantas ciências, somos apenas animais como qualquer outro, que tão fragilmente dependem de água, ar, comida, de um planeta, que só existe em coexistência com demais seres e que de uma hora pra outra, basta 4 minutos sem ar ou um víruszinho microscópico e puft. Já era o ser "todo poderoso"... Quase ninguém quer encarar essas questões, é muito mais fácil falar que é "coisa de gente estranha", de gente "fraca" do que encarar que todos nós estamos perdidos aqui, num planeta azul no meio do nada, sem saber nem 1/1000 de tudo que existe e que independente se você frequenta academia, se você é bambambam no trabalho, se você é o mais lindo de todos os habitantes da face da Terra ou se é apenas um vagabundo qualquer... porque todos, TODOS nós morreremos, impiedosamente, democraticamente, sem sabermos pra onde vamos, nem se vamos...e por aí vai.

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  2. Eu conheço um poema que diz "Pare de dizer 'eu sei como você se sente'. Como alguém poderia saber como um outro se sente". Eu concordava com esses versos, até ler esse post.

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