Pra onde foi o ideal de beleza dos anos 50? Parte II: Sobre supermodelos nos anos 50, celebridades atuais e outras coisas que esquecemos

terça-feira, 21 de julho de 2015

A internet e sua facilidade em espalhar conteúdo que induz ao erro só contribuem para que as pessoas admirem a maravilhosa década de 50 pelos motivos errados, imaginando um ideal de beleza inclusivo e uma aceitação corporal que nunca existiu.  Para esclarecer alguns enganos comuns aos iniciantes no mundo da moda e do vintage, decidi fazer dois posts sobre o assunto. A primeira parte está aqui, essa é a segunda.
A modelo fashion dos anos 50 x a figura da Pin-up
Dovima, modelo fashion dos anos 50 x Bettie Page, pin-up
O grande problema de romantizar uma década inteira é não se permitir conhecê-la de verdade. A
Barbara Goalen
cultura 
pop nos traz ilustrações de pin-ups, fotos de atrizes, saias poodle e vestidos de bolinha e de repente isso é tudo o que há de memorável. Pin-ups eram modelos, mas elas eram modelos de sensualidade correspondentes ao ideal masculino. Onde estão as esquecidas modelos fashion dos anos 50 nessa equação? Em lugar algum, e é aí onde tudo dá errado. Relembremos algumas supermodelos da época como comparativo: Dovima possui medidas mínimas 83 de busto, 48 de cintura e 86 quadril pra 1,72 de altura, Barbara Goalen tinha o mesmo busto, 45 de cintura (!!) e 79 de quadril. Comparadas as modelos de hoje pode não parecer tanta magreza, mas na época é bem distante do real pra maioria das mulheres. Basta olhar as fotos de modelos da Dior, Balenciaga e tantas outras pra perceber que a realidade é mais distante ainda dessa ideia onde nos anos 50 modelos eram todas curvilíneas como Bettie Page que, aliás, tentou ser uma modelo fashion da Ford Models e ouviu da própria Eileen Ford que (adivinhem?) era grande demais pra isso e tinha muito quadril. A própria Bettie recorda isso no documentário Bettie Page Reveals All, onde cita que fazia exercícios regulares para manter sua forma também. Além das modelos fashion, o estilo “gamine” ou “waif” que era usado para designar mulheres magras, de cabelos curtos, vestuário elegante, olhos grandes e personalidade frágil e irreverente também era muito popular na década, sendo muito popularizado pela, vejam só, atriz Audrey Hepburn (e ela nem era a única).

Levando em conta as especificidades da época, dá pra dizer que o cenário é muito diferente de hoje? Temos as modelos fashion e atrizes cuja magreza e linhas longilíneas são associadas com elegância e fragilidade, temos as atrizes, cantoras e modelos sensuais que correspondem a um ideal de “bombshell” de corpo sexy e atraente que é buscado por mulheres adultas e costuma atrair o público masculino e temos as mulheres comuns, que costumam estar mais próximas disso do que da figura da modelo fashion. O ideal sexy e curvilíneo nunca deixou de estar em voga e nem de ser procurado ou de ser considerado bonito e seu público principal (mulheres adultas e homens) nunca substituiu esse ideal da mulher sensual pelas modelos magérrimas. Embora na época era importante ter uma silhueta ampulheta e curvilínea e as mulheres buscavam isso (eram os anos 50, preferências masculinas eram a lei e a moda não era tão influente nesse ponto), uma magra que possuísse um corpo ampulheta mesmo sem tantas curvas tinha espaço na mídia e na moda. A magreza está na moda desde os anos 20, quando a indústria da moda sofreu uma explosão e as melindrosas com seus corpos magros e andróginos eram o ideal de beleza da mulher moderna, independente e liberada de corsets e outros ideais de corpo mais femininos e restritivos.

Dovima, 48cm de cintura

A silhueta ampulheta farta de quadris e seios, fina na cintura e esguia nunca saiu de moda e nunca deixou de ser o corpo ideal, a silhueta magra e reta ganhou espaço na mídia desde os anos 20 com as flappers e a silhueta plus size ao menos desde o século XX nunca foi apreciada como deveria. Comparar esses dois tipos tão diferentes de modelos é injusto, já que modelos magras e mulheres curvilíneas e sensuais existiam tanto nos anos 50 quanto hoje em dia, e servindo de ideal de corpo pra dois propósitos diferentes. Nos anos 50 tínhamos Bettie Page e Dovima, no século XXI temos Kim Kardashian e Kate Moss, nada mudou. Pra quem não conseguiu descobrir ainda onde foi parar o imaginário da pin-up e o ideal de beleza sensual dos anos 50, sugiro procurar aqui na imagem abaixo porque nenhuma celebridade atual trouxe de volta ou levou embora o ideal voluptuoso: o ideal da bombshell magra com curvas nunca foi embora, você só nunca ia encontrá-lo olhando pra uma passarela nem hoje e nem nos anos 50. Todas essas abaixo são contemporâneas e consideradas mulheres belíssimas e são só alguns poucos exemplos. Da mesma forma que Marilyn não deixou de ser apreciada com a existência de Audrey e seus admiradores, nenhuma dessas abaixo deixou de ser apreciada só porque existem atrizes e modelos com menos curvas servindo a propósitos fashion ou a outros públicos.

Bombshells contemporâneas, conhecidas pela sua voluptuosidade e corpos perfeitos

Disso tudo, podemos entender que...
Brosmer e sua cintura
impossível

A silhueta da pin-up bombshell dos anos 50 nunca saiu de moda e que é sim mais realista em diversos 
aspectos do que o desejado hoje em dia, é claro que ela é muito mais natural se comparada ao ideal de hoje que conta com intervenções cirúrgicas, procedimentos estéticos minuciosos, photoshop e outras tantas mil coisas. O problema é que essa época não é um bom comparativo quando falamos de valorização do plus size ou modelos reais, já que contava com padrões rígidos de boa forma e peso e mesmo as modelos sensuais e curvilíneas ainda eram uma figura idealizada. A mulher comum não tinha tantas condições na época para transpor essas diferenças, tornando esse corpo ainda assim algo difícil de alcançar. 
Dá pra dizer com certa segurança que com uma adaptadinha aqui e ali o padrão de beleza se manteve desde os anos 50 e o que mudou foi a mulher comum e a quantidade de recursos que possuímos no setor cosmético, cirúrgico, tecnológico e de moda. As características valorizadas desde os anos 50 são as mesmas, mas foram exageradas para que ainda houvesse dificuldade em consegui-las porque o padrão nunca vai corresponder a mulher mediana se precisa ser algo pra poucos.
Pin-up de Vargas
Pra entender como funciona o padrão, precisamos entender que ele é elusivo e a intenção é ser algo difícil de alcançar. No lugar de acompanhar a onda de aumento de tamanho e proporções da mulher atual, ele distanciou ainda mais esse padrão pra que tentar alcançá-lo ainda seja difícil e gere dinheiro.  Se as modelos eram altas e a mulher mediana ficou mais alta também, então as modelos serão altíssimas. Se as sex symbols de antigamente eram curvilíneas porém com cinturinha, então terão ainda mais peito e bunda pra dar dinheiro pro setor cirúrgico, celulite de repente vira o demônio e são necessárias também barrigas chapadas de academia. Criam-se novas imperfeições todos os dias pra que assim que você terminar de consertar um “defeito”, outro que você nem sabia que tenha surja pra te fazer gastar mais.
Kerosene Deluxe

Subvertendo isso, a cena das entusiastas de pin-up de hoje em dia é um ótimo lugar onde é pregada a valorização de todos os tamanhos e formas através da estética e moda vintage. Isso talvez confunda os marinheiros de primeira viagem que veem fotos de mulheres lindas e plus size vestidas em roupas antigas e associa isso com a beleza dos anos 50 e não com a corrente atual de aceitação corporal que vem quebrando barreiras e empoderando mulheres em subculturas e recentemente na moda mainstream. O movimento Body Positive dos dias de hoje foi combinado com o revival da superfeminina moda retrô pra mostrar que todas as mulheres podem ser glamourosas sem precisarem seguir os ideais midiáticos e serem femininas sendo donas de seus corpos sem serem passivas ou menos poderosas por isso. Alguma dúvida de que essa interação entre épocas tão diferentes combina o melhor dos dois mundos?
Tess Holiday/Tess Munster

Se mais alguém confundir ela com a
Bettie eu vou surtar. Nem franja ela tem!

O fato de que mais recentemente o culto ao corpo perfeito, dietas, exercício e a glamourização do estilo 
de vida das modelos passaram a ser vendido como algo desejável também começou a influenciar mais as garotas jovens a tentar seguir esse ideal e por conta disso tem-se a impressão de que do nada todo mundo só gosta de pele e osso, o que nunca foi verdade. O apelo do mundo fashion aumentou sim e muito, mas o padrão de beleza dos anos 50 não foi a lugar algum. A indústria fashion gosta de modelos magras e cada vez mais garotas têm sido atraídas pra essa indústria e esse ideal, mas figuras como Scarlet Johansson, Kim Kardashian e Christina Hendricks nunca perderam seu apelo para as mulheres adultas e homens. Sintomático disso são aqueles seus amigos que compartilharam pela vigésima segunda vez aquela foto do “corpo ideal eleito pela revista time de 1955” choramingando que queria que esse ideal nunca tivesse ido embora: tanto ele nunca foi que essa moça é uma modelo e atriz pornográfica ATUAL chamada Aria Giovanni e essa imagem é um hoax e nada tem a ver com a revista time de 1955.

Aria Giovanni em ensaio atual, inspirada por pin-ups

Mulher Melancia, uma das
playboys mais vendidas no
país
Se levarmos em consideração a nossa localização aí é que a coisa ficou pior ainda: Enquanto nos EUA essa cultura da magreza é muito mais enfática, “fat ass” é xingamento e descobriram a bunda com JLo, Kim Kardashian e Nicki Minaj, no Brasil esse ideal mulher violão nunca foi sequer questionado enquanto preferência nacional. O ideal esguio de barriga chapada, pernas torneadas, quadril largo, seios fartos e cintura fina tá aí desde sempre. O ideal magricela surgiu na moda e passou a também ser desejável pela juventude desde os anos 20 com as flappers, nos anos 60 pela Twiggy e as mods, mais recentemente pelas heroin chics dos anos 90 e mais atualmente pela internet. Se você busca a aceitação e representação de mais tipos de corpos pela mídia além desses o conselho que fica é olhar pro futuro e não pro passado, nossa década parece mais promissora nesse sentido do que qualquer outra.

Vem que o futuro tá muito mais promissor!


Para maior entendimento e pesquisa sobre os temas abordados nesses dois posts, fiquem com esses links (em inglês):

2 comentários:

  1. Nossa, vejo que você pesquisou bem pra passar essas informações. Eu mesma não sabia de metade disso, realmente a gente acaba achando que a cada década tudo muda, mas parando pra pensar, há sempre várias vertentes, uma coisa só não pode satisfazer toda uma geração né? sauhsauhsa Gostei muito do post, parabéns!!!

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  2. Esses duas postagens foram um delicia de ler. As pessoas glorificam o passado pelos motivos errados boa parte das vezes.

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